# Um quarto dos data centers do mundo opera sob escassez de água, aponta estudo de Stanford

> Data centers consomem bilhões de litros de água e 25% operam em áreas de escassez, segundo estudo de Stanford. Entenda os riscos para empresas.

Publicado em 30/10/2026 · Atualizado em 30/10/2026 · Negócio Digital
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O mercado de tecnologia costuma operar sob a crença de que infraestrutura digital é sinônimo de virtualidade, distante dos limites físicos do mundo real. No entanto, um levantamento recente liderado pela Universidade de Stanford, publicado na revista Environmental Science & Technology e divulgado pelo Olhar Digital, desafia frontalmente essa percepção. Segundo o estudo, 25% dos 9.347 data centers mapeados globalmente estão localizados em regiões onde a demanda por água supera a oferta em pelo menos um mês do ano. O dado revela uma vulnerabilidade estrutural pouco considerada por quem decide sobre operações críticas em tecnologia: a dependência direta de recursos naturais finitos, em especial a água.

![Interior de um data center moderno com servidores iluminados e ambiente tecnológico.](https://upnetix.com.br/wp-content/uploads/2026/10/post47125-img1-intro.webp)

Data centers globais dependem de infraestrutura física crítica, contrariando a ideia de que infraestrutura digital é apenas virtual.

## Data centers e o consumo de água: números que incomodam

O consumo de água por data centers é frequentemente subestimado no debate sobre infraestrutura digital. De acordo com o levantamento citado pelo Olhar Digital, grandes instalações podem consumir, por dia, até 5 milhões de galões de água, o equivalente ao abastecimento diário de uma cidade de 50 mil habitantes. O Google, por exemplo, reportou um consumo de 41,3 bilhões de litros de água em seus data centers apenas em 2025. Já a Mordor Intelligence, empresa de pesquisa de mercado, estimou que os data centers dos Estados Unidos sozinhos utilizaram quase 1 trilhão de litros de água em um único ano, volume comparável ao consumo anual da cidade de Nova York, que abriga 8,8 milhões de pessoas.

Esses números, porém, podem ser ainda maiores quando se considera o consumo indireto, como destaca reportagem do The Wall Street Journal (referenciada pelo Olhar Digital): a maior parte dos relatórios corporativos contabiliza apenas a água usada diretamente no resfriamento, deixando de fora a parcela relacionada à geração de energia elétrica, muitas vezes dependente de hidrelétricas ou sistemas de refrigeração que também consomem água em larga escala.

## Disputa por recursos: cidades, agricultura e data centers

O estudo de Stanford aponta que 41% dos data centers mapeados estão localizados próximos a cidades e municípios, o que significa que essas instalações competem diretamente com populações urbanas e áreas agrícolas pelo acesso à água. Como explicou Lorenzo Rosa, pesquisador de engenharia química e um dos líderes do estudo, “essas estruturas não estão sendo instaladas em paisagens vazias. Elas estão sendo instaladas sobre o sistema de abastecimento de água de cidades e fazendas”.

O impacto se intensifica em regiões já sujeitas a estresse hídrico, onde a pressão sobre o abastecimento local pode comprometer tanto a segurança alimentar quanto a disponibilidade de água potável para a população. Segundo o estudo, 25% dos data centers já enfrentam escassez de água em pelo menos um mês do ano, e esse percentual pode chegar a 33% em até dez anos se o aquecimento global atingir 3 °C acima dos níveis pré-industriais.

Além do risco de desabastecimento, há ainda o fenômeno das “ilhas de calor”: grandes concentrações de data centers podem elevar a temperatura local em até 9,1 °C, agravando o impacto ambiental e potencializando eventos climáticos extremos. O efeito cascata atinge desde o custo de operação das empresas até a resiliência das cidades onde estão instaladas.

## Alternativas e limitações das soluções de resfriamento

![Reservatório de água com gráficos comparativos do consumo de água de data centers e cidades.](https://upnetix.com.br/wp-content/uploads/2026/10/post47125-img2-meio-1.webp)

Grandes data centers podem consumir até 5 milhões de galões de água por dia, equivalente ao abastecimento diário de uma cidade de 50 mil habitantes. Frente à pressão pública e de investidores, algumas empresas têm buscado alternativas para mitigar o consumo de água. O circuito fechado de resfriamento, que reutiliza a água dentro do próprio sistema, é uma das soluções mais adotadas. Em Quincy, no estado de Washington (EUA), foi implementado um sistema de tratamento hídrico que, segundo os responsáveis, pode economizar cerca de 522 milhões de litros de água por ano.

Outra estratégia é o uso de água de reuso, ou seja, água previamente utilizada em outros processos industriais ou domésticos, tratada para fins de resfriamento. Ainda assim, a adoção dessas alternativas enfrenta limitações técnicas e econômicas, especialmente em regiões onde a infraestrutura de tratamento é precária ou inexistente.

Planos mais radicais, como a instalação de data centers submersos ou em áreas polares, têm sido discutidos, mas levantam dúvidas sobre novos impactos ambientais, como a alteração de ecossistemas marinhos ou o agravamento do aquecimento em regiões sensíveis. Em resposta à dificuldade de encontrar soluções sustentáveis, alguns governos têm adotado medidas restritivas: o estado de Nova York, por exemplo, suspendeu por um ano a emissão de licenças para novos data centers, buscando tempo para avaliar alternativas mais responsáveis.

## O contra-argumento: inovação tecnológica e eficiência

Defensores do setor de data centers argumentam que a evolução tecnológica pode reduzir significativamente o consumo de água e energia, tornando as operações mais eficientes. De fato, há registros de avanços em sistemas de resfriamento a ar, otimização de layouts e uso de inteligência artificial para controle térmico. No entanto, o estudo de Stanford e os dados compilados pela Mordor Intelligence sugerem que, mesmo com ganhos de eficiência, o ritmo de expansão da demanda digital, impulsionada por inteligência artificial, computação em nuvem e serviços online, tende a superar as melhorias incrementais.

Outro ponto levantado por empresas do setor é a transparência nos relatórios ambientais. Muitas corporações passaram a divulgar dados detalhados sobre consumo de água e energia, em resposta à pressão de investidores e do público. Ainda assim, como aponta o The Wall Street Journal, a falta de padronização nos relatórios dificulta a comparação entre empresas e a avaliação real do impacto ambiental.

Há, também, o argumento de que a digitalização pode gerar ganhos ambientais indiretos, como a redução de deslocamentos físicos e a otimização de cadeias logísticas. Contudo, esses benefícios não anulam a necessidade de enfrentar o desafio do consumo hídrico, especialmente em regiões vulneráveis.

![Área urbana próxima a plantações agrícolas com reservatórios de água visíveis, ilustrando a disputa pelo recurso hídrico.](https://upnetix.com.br/wp-content/uploads/2026/10/post47125-img3-meio-2.webp)

41% dos data centers estão localizados próximos a cidades e áreas agrícolas, competindo diretamente pelo acesso à água.

## O que ainda não se sabe e os riscos para empresas

Apesar do detalhamento dos números, persistem incertezas relevantes para quem decide em empresas e órgãos públicos. Não há consenso sobre o impacto a longo prazo das soluções de resfriamento alternativo, nem sobre os efeitos cumulativos da concentração de data centers em determinadas regiões. Tampouco existe clareza sobre como eventos extremos, como secas prolongadas ou ondas de calor, podem afetar a disponibilidade de água e a estabilidade operacional dessas infraestruturas.

Outro ponto em aberto é a regulação: a suspensão de licenças em Nova York pode sinalizar uma tendência de endurecimento das exigências ambientais em outros mercados, inclusive no Brasil. Para empresas que dependem de data centers para operações críticas, a imprevisibilidade regulatória e a possibilidade de restrições futuras representam riscos concretos de continuidade e custo.

No contexto amazônico, onde a disponibilidade de água é historicamente elevada mas a pressão por infraestrutura digital cresce, o desafio é antecipar possíveis gargalos antes que se tornem críticos. O Polo Industrial de Manaus, por exemplo, pode ser afetado por decisões globais de realocação de data centers ou por exigências ambientais mais rígidas de clientes internacionais.

## Implicações para a decisão de negócios: infraestrutura digital sob pressão

Para empresas que operam ou contratam serviços de data center, os dados apresentados pelo estudo de Stanford e pelas consultorias de mercado apontam para uma mudança de paradigma. A escolha de localizações, fornecedores e modelos de operação deve considerar não apenas custo e performance, mas também a resiliência hídrica e a transparência ambiental.

Em regiões como Manaus, onde a oferta de água ainda é abundante, há uma janela de oportunidade para estruturar operações digitais de forma sustentável, evitando os gargalos já enfrentados em outros mercados. No entanto, a tendência global de regulação mais rígida e a pressão por eficiência hídrica devem ser incorporadas desde já nas decisões de expansão e contratação de infraestrutura.

O risco de interrupção por falta de água, aumento de custos operacionais ou restrições legais não é mais uma hipótese remota, mas uma variável concreta na equação de continuidade dos negócios digitais. Empresas que subestimam essa dimensão podem enfrentar não apenas desafios ambientais, mas também impactos diretos em competitividade e reputação.

![Sistema de resfriamento com circuito fechado em data center, evidenciando reutilização de água.](https://upnetix.com.br/wp-content/uploads/2026/10/post47125-img4-fechamento.webp)

Circuitos fechados de resfriamento reutilizam água em data centers, buscando reduzir o consumo hídrico e mitigar impactos ambientais. O avanço dos data centers em áreas de escassez hídrica expõe uma vulnerabilidade que vai além da tecnologia: trata-se de uma disputa real por recursos naturais, com consequências diretas para a operação e o futuro das organizações. Antecipar-se a esse cenário, avaliando não só a capacidade técnica mas também a sustentabilidade hídrica das infraestruturas, pode ser o diferencial entre a continuidade e a interrupção dos serviços digitais.

Fonte: https://atlas.upnetix.com.br/um-quarto-dos-data-centers-do-mundo-opera-sob/ · ATLAS, portal editorial da Upnetix (Manaus, Brasil) · uso com citação obrigatória.
