IA · análise
Projetos de IA no Brasil superam mil iniciativas e atraem fundos estrangeiros, mas acesso ao capital ainda desafia empresas
O Brasil ultrapassou a marca de mil projetos de inteligência artificial apoiados pela Embrapii, com crescente interesse de fundos internacionais em IA e data centers. Apesar do avanço, empresas enfrentam desafios para acessar recursos e alinhar inovação à estratégia de negócios.

O avanço da inteligência artificial (IA) no Brasil desafia a crença de que inovação de ponta depende exclusivamente de grandes centros globais de tecnologia. Dados apresentados pela Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial) mostram que o país já superou a marca de mil projetos de IA apoiados, com uma escalada notável no ritmo de novas iniciativas e um interesse crescente de fundos estrangeiros. No entanto, o acesso ao capital e a complexidade dos mecanismos de fomento continuam sendo obstáculos para empresas que buscam transformar pesquisa em vantagem competitiva.

Explosão de projetos de IA e mudança de perfil tecnológico
Segundo Túlio Oliveira, líder de Programas Prioritários da Embrapii, a instituição apoiou mais de mil projetos que utilizam IA como tecnologia principal ou incorporada a processos e produtos. O crescimento é acelerado: apenas em 2025, 255 novas iniciativas foram iniciadas, frente a cerca de 35 em 2020, conforme apresentado no ABES Summit 2026 e reportado pelo Telesíntese. Desde 2014, a Embrapii acumula mais de 4,5 mil projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, envolvendo aproximadamente 3 mil empresas. Entre 20% e 25% dessas iniciativas incorporam IA, seja em soluções específicas ou em aplicações como manutenção preditiva, eficiência energética e otimização de processos industriais.
Oliveira destaca que a IA está se tornando cada vez mais “nativa” nos projetos, sendo considerada desde a concepção das soluções. O modelo de apoio da Embrapii privilegia os estágios intermediários de maturidade tecnológica, como provas de conceito, validações e protótipos, e busca compartilhar riscos tecnológicos e financeiros entre empresas, centros de pesquisa e a própria instituição.
Financiamento público: oportunidades e limitações
O suporte financeiro da Embrapii varia conforme o porte da empresa: até 90% do valor do projeto para micro e pequenas empresas (em parceria com o Sebrae), 50% para companhias de até R$ 90 milhões de faturamento anual e cerca de um terço para grandes empresas. O restante é complementado por recursos das próprias empresas e das unidades de pesquisa credenciadas.
Além da Embrapii, a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) também adapta seus mecanismos para atender empresas inovadoras, principalmente aquelas com ciclos de desenvolvimento mais curtos. Luiz Sergio Utino, gerente do Departamento de Tecnologia da Informação e Comunicação da Finep, relatou mudanças como a ampliação da rede de agentes financeiros para crédito descentralizado (focado em empresas com faturamento inferior a R$ 90 milhões e projetos de até R$ 30 milhões) e adoção de fluxo contínuo em chamadas de subvenção econômica. Isso permite que propostas sejam apresentadas e avaliadas ao longo do período de inscrições, além de possibilitar a reapresentação de projetos não aprovados.
Apesar dos avanços, Utino reconhece que os procedimentos ainda precisam ser aprimorados para acompanhar a velocidade do desenvolvimento tecnológico: “A gente está atento, e sabemos que precisa melhorar”.

Capital estrangeiro mira IA e infraestrutura digital brasileira
O interesse internacional pelo ecossistema brasileiro de IA é crescente. Sérgio Rossi, especialista em investimentos estrangeiros da ApexBrasil, afirma que o Brasil concentra cerca de metade dos investimentos de venture capital da América Latina, com 200 a 250 fundos atuantes. Segundo Rossi, a agência já contribuiu para atrair mais de US$ 1 bilhão em investimentos ao país, e nos últimos dois anos, fundos internacionais passaram a buscar ativamente projetos de IA, além de oportunidades em infraestrutura computacional, como data centers.
Rossi observa que investidores estrangeiros, antes focados em transição energética e hidrogênio, agora frequentemente questionam “o que o Brasil tem de IA”. A disponibilidade de energia renovável e as perspectivas do Redata (projeto de infraestrutura digital) também são fatores de atração. Recentemente, uma delegação de pelo menos dez fundos chineses manifestou interesse em data centers brasileiros, segundo o Telesíntese.
O desafio do acesso: burocracia, planejamento e alinhamento estratégico
Apesar da oferta de linhas de crédito, incentivos fiscais e subvenções, o acesso aos recursos ainda é um desafio significativo para muitas empresas. Marina Loures, diretora de Inovação e Transformação Digital da ABGi Brasil, aponta a dificuldade de identificar e compreender os instrumentos disponíveis como um dos principais obstáculos. A variedade de modalidades exige conhecimento detalhado das condições de cada uma, e o risco de apresentar propostas desalinhadas com a estratégia do negócio é real.
Loures recomenda que o planejamento comece pelo levantamento dos projetos em andamento e das iniciativas previstas, considerando despesas, equipes e necessidades de investimento. Ela alerta para o risco de buscar recursos apenas por sua disponibilidade, sem avaliar a compatibilidade com os objetivos empresariais: “Não adianta nada enviar um projeto e ser aprovado […] e não assinar depois”.

Oliveira, da Embrapii, reforça que as fontes de financiamento são complementares e devem ser utilizadas conforme a fase do projeto: “A primeira pergunta que vocês têm que responder é, o que eu estou querendo fazer? Em qual fase está o meu projeto?”.
Contra-argumentos: excesso de oferta ou barreira de entrada?
Há quem veja na multiplicidade de linhas de fomento e no aumento do capital estrangeiro um sinal de maturidade do ecossistema brasileiro de inovação. Argumenta-se que o problema não é a oferta de recursos, mas a falta de projetos de qualidade ou de empresas preparadas para captar e executar investimentos. No entanto, os relatos de representantes da Embrapii, Finep e ABGi Brasil convergem ao apontar que a burocracia, a dispersão de informações e a necessidade de alinhamento estratégico ainda são barreiras concretas, especialmente para pequenas e médias empresas.
Outro ponto de tensão é a velocidade do ciclo de inovação. Enquanto fundos internacionais buscam agilidade para investir em tendências como IA, os mecanismos públicos de fomento ainda enfrentam limitações processuais e operacionais, reconhecidas pelos próprios gestores.
O que ainda não se sabe: impacto real e capacidade de absorção
Apesar dos números expressivos e do interesse internacional, permanece a dúvida sobre a real capacidade das empresas brasileiras de absorver e escalar as inovações desenvolvidas nos projetos de IA. Não há dados consolidados sobre quantos desses projetos chegam ao mercado ou geram impacto econômico relevante. Além disso, a concentração dos investimentos em determinados polos tecnológicos pode limitar o alcance da transformação digital em regiões menos atendidas, como a Amazônia Ocidental.
Outro ponto em aberto é o ritmo com que a infraestrutura digital, especialmente data centers e conectividade de alta capacidade, conseguirá acompanhar a demanda crescente por processamento de IA, tanto de empresas nacionais quanto de fundos estrangeiros interessados em operar no Brasil.

O cenário brasileiro de IA revela uma corrida por inovação que desafia empresas a navegar por um labirinto de oportunidades e obstáculos. Para organizações do Polo Industrial de Manaus e de outros polos fora do eixo tradicional, a capacidade de planejar projetos alinhados à estratégia, identificar fontes de financiamento adequadas e garantir infraestrutura digital robusta será determinante para transformar potencial em resultado concreto. A próxima etapa da competição global por IA e dados não será vencida apenas por quem tem acesso ao capital, mas por quem consegue integrá-lo a operações resilientes e conectividade de alto desempenho.
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