IA · análise
Itaú compra NeoSpace por R$ 2,9 bilhões e aposta em IA proprietária para o setor financeiro
Aquisição da startup de Uberlândia marca mudança estratégica: banco quer acelerar soluções de inteligência artificial com modelos treinados em dados próprios, reduzindo dependência de big techs.

A aquisição da NeoSpace pelo Itaú Unibanco, anunciada em 26 de outubro de 2026, representa um movimento estratégico de peso no cenário de tecnologia bancária nacional. Por R$ 2,9 bilhões, o maior banco privado do país passa a controlar integralmente a startup mineira, especializada em inteligência artificial para grandes volumes de dados corporativos. O negócio, que ainda aguarda aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central, é visto por fontes do setor como um divisor de águas na disputa por tecnologias proprietárias em serviços financeiros.

O que está em jogo: dados próprios e autonomia tecnológica
De acordo com reportagens do NeoFeed e da Startups, o Itaú já mantinha uma relação próxima com a NeoSpace desde 2025, quando liderou uma rodada de US$ 18 milhões e adquiriu 15% de participação. A decisão de compra integral foi motivada, segundo o CEO Milton Maluhy Filho, pela oportunidade de acelerar a transformação digital do banco, utilizando modelos de IA treinados com os próprios dados do Itaú. Essa estratégia visa reduzir a dependência de soluções genéricas de big techs globais como OpenAI, Google e Meta, permitindo ao banco maior controle sobre privacidade, segurança e diferenciação competitiva.
O NeoFeed destaca que a NeoSpace desenvolve Large Data Models (LDMs), modelos fundacionais distintos dos Large Language Models (LLMs) populares no mercado. Enquanto os LLMs trabalham com linguagem natural, os LDMs são voltados ao processamento de grandes volumes de dados tabulares e operacionais, típicos de bancos e grandes empresas. Essa abordagem, segundo o CIO do Itaú, Ricardo Guerra, permite antecipar padrões de comportamento dos clientes e aprimorar o relacionamento, indo além da personalização em massa para uma individualização das interações.
Consenso entre fontes: autonomia e continuidade operacional
Há concordância entre Startups, TI Inside, Mobile Time e NeoFeed quanto à manutenção da autonomia operacional da NeoSpace após a aquisição. Bruno Pierobon, fundador e CEO da startup, permanecerá no comando, agora também como diretor do Itaú. O acordo prevê a continuidade da equipe e dos projetos de pesquisa e desenvolvimento, com a NeoSpace atuando como braço avançado de IA dentro do ecossistema do banco. Essa dinâmica repete o modelo adotado na aquisição da Zup Innovation, também fundada por parte do time da NeoSpace e comprada pelo Itaú em 2019.

Outro ponto recorrente nas fontes é a integração dos modelos da NeoSpace à plataforma ia.i, assistente de inteligência artificial generativa do Itaú, que já conta com 3 milhões de usuários e deve ser expandida para toda a base de clientes até o fim de 2026. As aplicações vão desde crédito personalizado e gestão financeira até prevenção a fraudes e atendimento automatizado, sempre com foco em experiências mais contextualizadas e seguras.
Detalhes financeiros e motivações estratégicas
O valor de R$ 2,9 bilhões será pago em parcelas, sendo a primeira na conclusão do negócio e o restante ao longo de cinco anos, conforme detalhou o Mobile Time. O NeoFeed acrescenta que a NeoSpace buscava uma rodada de captação de até US$ 250 milhões quando o Itaú decidiu pela compra total, enxergando o momento como uma oportunidade estratégica. Para o banco, a aquisição representa não apenas acesso a tecnologia de ponta, mas também a um time de cerca de 80 pesquisadores com experiência em IA aplicada ao setor financeiro.
O CEO do Itaú, em entrevista ao NeoFeed, afirmou que a decisão de internalizar a NeoSpace foi impulsionada pela necessidade de acelerar a jornada de transformação digital e garantir que o banco esteja entre os protagonistas globais da próxima onda de inovação financeira. “Queremos que o Itaú esteja entre as instituições que vão definir o próximo capítulo da indústria financeira global”, declarou Maluhy em nota oficial, reforçando o papel do Brasil como referência internacional em inovação bancária.
Divergências e pontos exclusivos das fontes
Embora haja consenso sobre os principais contornos do negócio, algumas nuances aparecem em determinadas fontes. O TI Inside ressalta que parte do pagamento é diferido e condicionado ao desempenho futuro, enquanto o NeoFeed aprofunda a análise sobre a diferença entre LDMs e LLMs, destacando a aposta do Itaú em modelos ajustados a dados internos e necessidades específicas do setor financeiro. Já o Mobile Time enfatiza o histórico de prestação de serviços da NeoSpace ao Itaú e o papel da startup na identificação de padrões complexos em grandes volumes de dados.

Outro ponto destacado apenas pelo NeoFeed é a expectativa de que, após a aprovação regulatória e o encerramento de contratos com outros clientes, a NeoSpace se dedique exclusivamente ao Itaú. Isso reforça a tese de verticalização da inovação, com o banco buscando diferenciação não apenas pela tecnologia, mas também pela exclusividade do capital humano e do know-how acumulado pela equipe da startup.
Implicações para empresas e o setor de tecnologia
A compra da NeoSpace pelo Itaú sinaliza uma tendência de consolidação e internalização de competências críticas em IA por grandes players do setor financeiro. Para empresas que dependem de soluções de dados e inteligência artificial, o movimento reforça a importância de investir em modelos proprietários ou parcerias estratégicas que permitam controle sobre dados sensíveis e diferenciação competitiva. O caso também evidencia o valor crescente de equipes especializadas e da capacidade de aplicar IA a desafios reais de negócio, como prevenção a fraudes, personalização de serviços e automação de processos.
No contexto brasileiro, e especialmente para organizações do Polo Industrial de Manaus e do setor público, a operação destaca a necessidade de infraestrutura robusta para suportar projetos avançados de IA. O volume de dados transacionados, a necessidade de baixa latência e a segurança das informações tornam-se ainda mais críticos à medida que modelos proprietários ganham espaço. Empresas que atuam em segmentos regulados ou que lidam com grandes volumes de dados operacionais devem avaliar com atenção a viabilidade de desenvolver ou contratar soluções de IA sob medida, considerando os requisitos de conectividade, disponibilidade e integração com sistemas legados.
O avanço do Itaú na direção de uma IA proprietária, com forte ênfase em dados internos e autonomia tecnológica, coloca pressão sobre concorrentes e fornecedores de tecnologia. Para quem opera em mercados complexos e regulados, como bancos, indústria e governo, a lição é clara: a capacidade de controlar e escalar soluções de IA pode definir quem lidera a próxima fase de transformação digital. A infraestrutura de dados e conectividade, nesse cenário, deixa de ser apenas suporte e passa a ser elemento central da estratégia de inovação e competitividade.

O movimento do Itaú ao incorporar a NeoSpace mostra que, para organizações que querem ir além do uso genérico da IA, a próxima fronteira está em modelos treinados sob medida, com domínio sobre dados e processos críticos. Isso exige não só talento técnico, mas também uma base sólida de conectividade e integração, capaz de sustentar o ritmo e a escala das inovações que o mercado já começa a exigir.
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