Inteligência artificial acelera análise de risco em duplicatas escriturais e desafia práticas tradicionais de crédito empresarial

Duplicata escritural e IA prometem ampliar e baratear crédito empresarial, mas desafios de validação e infraestrutura persistem.

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Inteligência artificial acelera análise de risco em duplicatas escriturais e desafia práticas tradicionais de crédito empresarial

A chegada da duplicata escritural, combinada ao uso de IA, promete transformar a concessão de crédito para empresas no Brasil. Especialistas destacam ganhos em velocidade e precisão, mas alertam para limitações e riscos ainda pouco discutidos.

por Atlas Upnetix Review Team · 7 de setembro, 2026 · 9 min de leitura
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O lançamento da duplicata escritural no Brasil, aliado à adoção de inteligência artificial (IA) para análise de risco, desafia uma das crenças mais arraigadas do mercado de crédito: a de que o acesso ao financiamento empresarial depende, sobretudo, de garantias tradicionais e avaliações manuais demoradas. Em menos de dois meses de operação do novo sistema, fintechs e registradoras já anunciam modelos de IA capazes de prever inadimplência e acelerar a liberação de recursos. O discurso otimista, porém, esconde desafios técnicos, riscos de sobreconfiança em métricas não validadas e a necessidade de infraestrutura robusta para lidar com volumes inéditos de dados.

Equipe de fintech analisando dados financeiros em escritório moderno
Especialistas da fintech Delend analisam modelos de inteligência artificial para prever inadimplência em duplicatas escriturais, revolucionando o crédito empresarial.

Duplicata escritural: promessa de um novo ciclo no crédito empresarial

Desde 30 de junho, quando o Banco Central (BC) colocou em operação a duplicata escritural, o setor financeiro brasileiro passou a contar com um título digital, único e rastreável, que registra operações comerciais e serve de lastro para antecipação de recebíveis. Segundo o BC, a expectativa é destravar mais de R$ 11 trilhões em crédito nos próximos anos, especialmente para pequenas e médias empresas, tradicionalmente excluídas das linhas mais acessíveis.

Esse otimismo é compartilhado por grande parte do mercado. Pesquisa da Núclea, em parceria com o IBPad e a consultoria Môre, revelou que 88% das instituições financeiras acreditam que a duplicata escritural ampliará a oferta de crédito. Para 63% dos entrevistados, o principal indicador de sucesso será a expansão do crédito disponível, enquanto 41% destacaram a redução do custo das operações. Os dados foram publicados pelo InfoMoney.

O mecanismo digital não apenas comprova a existência do título e sua titularidade, mas também dificulta fraudes, como o uso de um mesmo recebível como garantia em múltiplas operações. Segundo o Banco Central, a rastreabilidade tende a ampliar a concorrência entre financiadores, permitindo negociações mais vantajosas para as empresas.

IA na análise de risco: ganhos de velocidade e precisão, mas com ressalvas

O avanço seguinte, apontado por especialistas e empresas do setor, é o uso de IA para transformar o enorme volume de dados das duplicatas em informação acionável para decisões de crédito. A fintech Delend, por exemplo, afirma ter treinado um modelo de IA com mais de 30 milhões de títulos emitidos por pequenas e médias empresas, totalizando cerca de R$ 80 bilhões em valor de face. Em testes internos, a empresa reportou uma taxa de acerto de 97,7% na previsão do comportamento de pagamento.

Esse número, no entanto, deve ser interpretado com cautela. O próprio InfoMoney ressalta que a métrica foi produzida pela Delend a partir de sua base de dados, sem validação independente pelo mercado de duplicatas escriturais. Além disso, como o sistema entrou em operação há menos de dois meses, o treinamento dos algoritmos ocorreu principalmente com históricos de boletos, notas fiscais e outros recebíveis, não com dados gerados no novo ambiente digital.

Apesar dessas limitações, a proposta da IA é clara: ir além da análise do solicitante do crédito e avaliar também o comportamento do sacado, ou seja, de quem efetivamente pagará o título. Para isso, modelos cruzam informações de pagamentos, atrasos, recorrência de relações comerciais, dados de sistemas de gestão empresarial (ERP) e informações do Open Finance, buscando estimar a probabilidade de quitação do título em tempo real.

Painel digital com dados financeiros sobre duplicatas escriturais e inteligência artificial
Painel da Delend com dados de mais de 30 milhões de títulos e taxa de acerto de 97,7% na previsão de inadimplência em duplicatas escriturais.

Segundo Fernando Wosniak Steler, cofundador e CEO da Delend, “existe um gap de crédito não atendido de R$ 2,5 trilhões apenas entre pequenas empresas”. O executivo defende que a IA pode aprender com a “linguagem transacional de duplicatas, notas fiscais, vencimentos, pagamentos e atrasos para prever esse risco e viabilizar a antecipação de crédito”.

Escala e complexidade: desafios para infraestrutura e governança

A dimensão do desafio operacional é inédita. Everson Menezes, CTO e COO da CERC, registradora especializada em recebíveis, afirma que mais de 600 milhões de duplicatas poderão ser administradas durante a fase de obrigatoriedade, envolvendo empresas, escrituradores, registradoras, plataformas, bancos, financiadores e sistemas de gestão empresarial. “O sistema já nasce com tecnologia capaz de transformar o enorme volume de dados gerado pelas duplicatas em informação para tomada de decisão. Isso abre espaço para modelos mais sofisticados de análise de risco, seleção de garantias e identificação de operações fora do padrão”, diz Menezes.

O InfoMoney destaca que o mercado de duplicatas movimenta entre R$ 10 trilhões e R$ 13 trilhões por ano. A expectativa é que a combinação entre infraestrutura digital, dados estruturados e IA torne a avaliação de risco mais eficiente e ajude a substituir linhas de crédito mais caras por alternativas baseadas em recebíveis.

Edson Silva, presidente da Nexxera, observa que a IA pode transformar a massa de informações em uma espécie de rating dinâmico das empresas. “Os dados reconhecidos pelo Banco Central têm potencial para alimentar modelos capazes de avaliar o risco de forma muito mais precisa, identificando padrões que dificilmente seriam capturados por análises convencionais”, afirma. Quanto melhor for essa leitura, maior tende a ser a capacidade de ampliar o acesso ao crédito.

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O que ainda não se sabe: limites, riscos e o papel da validação independente

Apesar do entusiasmo, há pontos críticos ainda em aberto. Primeiramente, o desempenho dos modelos de IA depende fortemente da qualidade e representatividade dos dados. Como o histórico da duplicata escritural é recente, parte significativa do treinamento ainda se apoia em dados de sistemas anteriores, como boletos e notas fiscais, que podem não refletir todos os padrões do novo ecossistema.

Outro risco é a sobreconfiança em métricas produzidas por empresas interessadas, sem validação independente. O InfoMoney alerta que os resultados divulgados por fintechs, como a Delend, ainda não passaram pelo crivo do mercado ou de órgãos reguladores. A ausência de benchmarks públicos dificulta a comparação entre soluções e pode levar a decisões precipitadas por parte de financiadores e empresas.

Profissionais usando sistemas ERP e Open Finance para análise de risco de crédito
Uso integrado de dados de sistemas ERP e Open Finance para avaliar o risco de crédito em duplicatas escriturais em tempo real.

Além disso, a automação da análise de risco, se não acompanhada por governança adequada, pode amplificar vieses históricos e criar novas formas de exclusão financeira, especialmente entre empresas com pouca digitalização ou histórico bancário limitado. O próprio InfoMoney destaca que a tecnologia tenta interpretar o comportamento real das operações comerciais, mas não elimina a necessidade de análise crítica por parte dos gestores.

Contra-argumentos: ceticismo, riscos operacionais e a visão dos críticos

Embora o consenso entre fintechs e registradoras seja de que a IA trará ganhos de eficiência e inclusão, há quem veja riscos na velocidade dessa transformação. Críticos argumentam que a dependência de sistemas automatizados pode gerar decisões erradas em cenários atípicos ou de crise, quando padrões históricos deixam de valer. Outros alertam para a possibilidade de falhas técnicas, vazamentos de dados ou ataques cibernéticos em um ambiente de alta complexidade operacional.

A ausência de validação independente dos modelos de IA é outro ponto de preocupação. Sem auditoria externa, não há garantia de que as taxas de acerto divulgadas reflitam a realidade do mercado. O InfoMoney enfatiza que, até o momento, não existe consenso sobre quais métricas devem ser adotadas para avaliar a performance desses sistemas.

Por fim, gestores de empresas e compradores de crédito precisam considerar que a infraestrutura tecnológica, tanto das registradoras quanto das próprias empresas, será determinante para capturar os benefícios prometidos. A falta de conectividade estável, integração com sistemas de gestão e proteção de dados pode transformar a promessa de agilidade em um novo gargalo operacional.

Implicações para empresas: decisões mais rápidas, mas dependentes de infraestrutura robusta

Para organizações que operam com grandes volumes de recebíveis, a combinação de duplicata escritural e IA representa uma oportunidade de acelerar a tomada de decisão sobre vendas a prazo, antecipação de crédito e gestão de fluxo de caixa. Segundo o InfoMoney, análises que antes levavam dias poderão ser incorporadas ao fluxo da própria operação comercial, com recomendações em tempo real sobre a melhor estratégia para cada título emitido.

No entanto, a adoção efetiva dessas soluções depende de conectividade de alta disponibilidade, integração com sistemas de gestão e capacidade de lidar com volumes massivos de dados. Empresas localizadas em regiões industriais, como Manaus, precisam avaliar se sua infraestrutura de rede suporta a demanda crescente por automação e análise instantânea. O risco de indisponibilidade ou lentidão pode anular os ganhos prometidos e até expor a organização a perdas financeiras ou reputacionais.

Gráfico 3D ilustrando destravamento de crédito de R$ 11 trilhões para PMEs
Expectativa do Banco Central de destravar mais de R$ 11 trilhões em crédito para pequenas e médias empresas com a duplicata escritural digital.

Em última análise, o avanço da duplicata escritural e da IA no crédito empresarial exige das empresas não apenas a atualização de processos, mas o investimento em conectividade confiável e integração tecnológica. A promessa de crédito mais rápido e barato só se concretiza para quem está preparado para operar em um ambiente digital de alta complexidade, onde a infraestrutura de rede é tão estratégica quanto a própria análise de risco.

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