Governo britânico investe em IA, mas fragilidade de TI expõe riscos bilionários, alerta PAC

Governo do Reino Unido aposta em IA, mas sistemas legados e déficit de profissionais elevam riscos e custos, alerta relatório do PAC.

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Governo britânico investe em IA, mas fragilidade de TI expõe riscos bilionários, alerta PAC

Relatório do Comitê de Contas Públicas do Parlamento britânico aponta que o avanço da inteligência artificial nas repartições públicas convive com sistemas legados vulneráveis, déficit de profissionais e custos crescentes com fraudes. O alerta expõe um dilema para gestores de TI: inovar sem resolver o básico amplia riscos e desperdícios.

por Atlas Upnetix Review Team · 14 de outubro, 2026 · 8 min de leitura
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O otimismo em torno da inteligência artificial (IA) no setor público britânico contrasta com uma realidade incômoda: sistemas legados, déficit de profissionais de tecnologia e custos crescentes com fraudes digitais. O mais recente relatório anual do Comitê de Contas Públicas (PAC) do Parlamento do Reino Unido, presidido por Sir Geoffrey Clifton-Brown, traz um diagnóstico que desafia a crença confortável de que investir em IA, por si só, prepara governos para o futuro digital. Ao contrário, a análise do PAC aponta que a pressa em adotar IA sem resolver gargalos estruturais pode ampliar riscos, desperdícios e exposição a ataques cibernéticos.

Sir Geoffrey Clifton-Brown em reunião do Comitê de Contas Públicas do Reino Unido, ambiente formal e corporativo.
Sir Geoffrey Clifton-Brown, presidente do Comitê de Contas Públicas do Reino Unido, responsável pelo relatório que analisa os riscos da adoção da IA em sistemas públicos legados.

IA avança, mas infraestrutura envelhecida limita benefícios

Segundo o relatório do PAC, o governo britânico tem anunciado iniciativas ambiciosas para incorporar IA em suas operações, mas adia a substituição de sistemas de TI antigos, conhecidos como legados. Essa postura, segundo o presidente do comitê, deixa departamentos vulneráveis a ameaças digitais cada vez mais sofisticadas, inclusive aquelas potencializadas pela própria IA. Clifton-Brown resume o cenário: “AI is approaching government like a tsunami, and I remain sceptical that government is prepared for the enormity of this challenge.” A avaliação é de que, sem modernização da base tecnológica, os ganhos prometidos pela IA dificilmente se materializarão.

O relatório destaca ainda que o governo demonstra “falta de urgência” em resolver o problema dos sistemas legados, o que gera riscos significativos para a segurança cibernética e impede o pleno aproveitamento de novas tecnologias. Esse diagnóstico não é isolado: diferentes órgãos e especialistas vêm alertando para o risco de priorizar projetos de inovação sem garantir a resiliência da infraestrutura básica.

Déficit de profissionais de TI agrava vulnerabilidade

Outro ponto crítico apontado pelo PAC é o déficit de profissionais qualificados em tecnologia e dados no serviço público. Apenas 6% dos servidores atuam em funções digitais e de dados, bem abaixo da meta oficial de 10%. A carência é ainda mais aguda entre especialistas seniores, cuja contratação e retenção são consideradas essenciais para enfrentar desafios de segurança e inovação.

O relatório observa que, apesar de anúncios de reformas para fortalecer a capacidade digital, o governo não detalhou como, ou quando, pretende fechar a lacuna de competências. A criação de novos ministérios, como o Departamento de Negócios, Inovação, Ciência e Comércio, é vista com ceticismo por Clifton-Brown, que teme que reorganizações sucessivas agravem o problema ao invés de resolvê-lo.

Fraudes e erros consomem bilhões de libras por ano

O impacto financeiro da fragilidade tecnológica é expressivo. De acordo com números citados pelo PAC, fraudes e erros já consomem entre £55 bilhões e £81 bilhões anuais dos cofres públicos. Somente no Departamento de Trabalho e Pensões, o valor pago indevidamente em benefícios por fraude e erro atingiu £9,9 bilhões em 2025-26, equivalente a 3,2% do orçamento do órgão. O plano para reduzir esse índice a 2,8% até 2028-29 é considerado insuficiente pelo presidente do comitê, que observa que “even if that succeeds, billions will still be going out the door.”

Sala de servidores antiga com equipamentos legados e técnico de TI avaliando infraestrutura.
Infraestrutura tecnológica legada no governo britânico que limita os benefícios da inteligência artificial e aumenta a vulnerabilidade a ataques cibernéticos.

O cenário se repete em outras áreas críticas, como o Home Office, responsável por políticas de imigração e segurança. O acúmulo de processos de asilo e os custos crescentes, £4,9 bilhões em 2024-25, levaram a adoção de soluções consideradas “contraproducentes” pelo PAC. A promessa de um novo sistema, feita por ministros, não veio acompanhada de explicações sobre funcionamento, custos ou prazos.

Além disso, o uso de ferramentas de IA para triagem de pedidos de asilo enfrenta críticas de entidades como o Open Rights Group, que apontam riscos de erros, falta de transparência e insuficiência de supervisão humana. O debate evidencia que a adoção de IA, sem critérios claros de governança e accountability, pode ampliar riscos ao invés de solucioná-los.

Modernização de TI: exemplos de fracasso e sucesso

O histórico recente de projetos de modernização de TI no governo britânico é marcado por contrastes. O caso da National Savings & Investments (NS&I) ilustra os riscos de iniciativas mal planejadas: o programa iniciado em 2020 para renovar sistemas e cortar custos já consumiu £3 bilhões até dezembro de 2024, £1,3 bilhão acima do previsto, e está classificado como “vermelho” desde 2022-23, indicando baixa probabilidade de entrega bem-sucedida. O órgão não conseguiu informar ao Parlamento nem o gasto atualizado nem uma data realista de conclusão.

Em contrapartida, o Banco da Inglaterra conseguiu reformular seu sistema de liquidação bruta em tempo real (RTGS) por £431 milhões, concluindo o projeto em abril de 2025. O PAC considerou o caso um exemplo positivo e sugeriu que outros departamentos aprendam com essa experiência. A diferença de resultados entre projetos evidencia que planejamento, governança e acompanhamento rigoroso fazem diferença decisiva no sucesso da modernização tecnológica.

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O contra-argumento: inovação pode esperar?

Há quem argumente que adiar a adoção de IA até que todos os sistemas legados estejam modernizados seria inviável diante da velocidade das mudanças tecnológicas e da pressão por serviços públicos mais eficientes. Defensores dessa abordagem destacam que a inovação incremental pode gerar ganhos mesmo em ambientes parcialmente modernizados, e que esperar pela “infraestrutura perfeita” pode significar perder oportunidades estratégicas.

Gráfico de barras mostrando perdas anuais por fraudes e erros em setores do governo britânico.
Perdas anuais por fraudes e erros no setor público do Reino Unido, incluindo £9,9 bilhões no Departamento de Trabalho e Pensões e £4,9 bilhões no Home Office.

No entanto, o relatório do PAC ressalta que a falta de integração entre sistemas antigos e novas soluções digitais tende a aumentar custos, criar silos de informação e dificultar tanto a segurança quanto a interoperabilidade. A experiência do NS&I, com custos fora de controle e entregas atrasadas, reforça o argumento de que inovação sem base sólida pode sair caro, e lento.

O que ainda não se sabe: custos reais e riscos futuros

O relatório do PAC reconhece que muitos custos de projetos de TI no setor público permanecem incertos, seja por falta de transparência, seja por dificuldades de mensuração de benefícios e riscos. Não há consenso, por exemplo, sobre o impacto real da IA na redução de fraudes, nem sobre a capacidade do governo de reter talentos digitais diante da competição do setor privado.

Também não está claro até que ponto a pressão por resultados rápidos em IA pode levar a decisões apressadas, como a adoção de sistemas sem validação adequada ou sem mecanismos de supervisão robustos. O debate sobre o uso de IA em processos sensíveis, como a análise de pedidos de asilo, ilustra os dilemas éticos e operacionais ainda em aberto.

Implicações para gestores públicos e empresas: o que muda na prática

Para quem decide em organizações públicas ou privadas, o alerta do PAC britânico serve como lição valiosa: a tentação de priorizar projetos de IA ou automação sem resolver gargalos de infraestrutura pode ampliar riscos financeiros, operacionais e reputacionais. O exemplo do Reino Unido mostra que metas ambiciosas de digitalização, sem investimento proporcional em modernização de sistemas e qualificação de pessoas, resultam em desperdício de recursos e aumento da vulnerabilidade a fraudes e ciberataques.

No contexto brasileiro, e especialmente em polos industriais como Manaus, onde a dependência de sistemas críticos é alta, a experiência britânica reforça a importância de mapear sistemas legados, avaliar riscos de integração e garantir que a infraestrutura de conectividade esteja à altura das demandas de IA e automação. A pressão por inovação não pode servir de desculpa para negligenciar o básico: disponibilidade, segurança e governança de dados.

O caso do Banco da Inglaterra também mostra que é possível modernizar sistemas essenciais sem extrapolar custos ou prazos, desde que haja planejamento, liderança técnica e acompanhamento rigoroso. Para empresas que fornecem serviços de TI ou conectividade para o setor público, o recado é claro: oferecer soluções que dialoguem com a realidade dos sistemas legados e que permitam evolução gradual pode ser um diferencial decisivo.

Equipe diversificada de profissionais de TI do governo discutindo soluções tecnológicas em ambiente moderno.
Déficit de profissionais qualificados em tecnologia no serviço público britânico agrava riscos e dificulta a modernização da infraestrutura digital.

O diagnóstico do PAC britânico não é apenas um alerta para Londres: é um espelho para qualquer gestor que aposta em IA sem encarar de frente as limitações da própria infraestrutura. A conta da modernização mal planejada não fecha, e, como mostram os bilhões perdidos em fraudes e projetos fracassados, pode sair mais cara do que qualquer investimento inicial em conectividade robusta, atualização de sistemas e capacitação de equipes.

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