IA · análise
Governo britânico investe em IA, mas fragilidade de TI expõe riscos bilionários, alerta PAC
Relatório do Comitê de Contas Públicas do Parlamento britânico aponta que o avanço da inteligência artificial nas repartições públicas convive com sistemas legados vulneráveis, déficit de profissionais e custos crescentes com fraudes. O alerta expõe um dilema para gestores de TI: inovar sem resolver o básico amplia riscos e desperdícios.

O otimismo em torno da inteligência artificial (IA) no setor público britânico contrasta com uma realidade incômoda: sistemas legados, déficit de profissionais de tecnologia e custos crescentes com fraudes digitais. O mais recente relatório anual do Comitê de Contas Públicas (PAC) do Parlamento do Reino Unido, presidido por Sir Geoffrey Clifton-Brown, traz um diagnóstico que desafia a crença confortável de que investir em IA, por si só, prepara governos para o futuro digital. Ao contrário, a análise do PAC aponta que a pressa em adotar IA sem resolver gargalos estruturais pode ampliar riscos, desperdícios e exposição a ataques cibernéticos.

IA avança, mas infraestrutura envelhecida limita benefícios
Segundo o relatório do PAC, o governo britânico tem anunciado iniciativas ambiciosas para incorporar IA em suas operações, mas adia a substituição de sistemas de TI antigos, conhecidos como legados. Essa postura, segundo o presidente do comitê, deixa departamentos vulneráveis a ameaças digitais cada vez mais sofisticadas, inclusive aquelas potencializadas pela própria IA. Clifton-Brown resume o cenário: “AI is approaching government like a tsunami, and I remain sceptical that government is prepared for the enormity of this challenge.” A avaliação é de que, sem modernização da base tecnológica, os ganhos prometidos pela IA dificilmente se materializarão.
O relatório destaca ainda que o governo demonstra “falta de urgência” em resolver o problema dos sistemas legados, o que gera riscos significativos para a segurança cibernética e impede o pleno aproveitamento de novas tecnologias. Esse diagnóstico não é isolado: diferentes órgãos e especialistas vêm alertando para o risco de priorizar projetos de inovação sem garantir a resiliência da infraestrutura básica.
Déficit de profissionais de TI agrava vulnerabilidade
Outro ponto crítico apontado pelo PAC é o déficit de profissionais qualificados em tecnologia e dados no serviço público. Apenas 6% dos servidores atuam em funções digitais e de dados, bem abaixo da meta oficial de 10%. A carência é ainda mais aguda entre especialistas seniores, cuja contratação e retenção são consideradas essenciais para enfrentar desafios de segurança e inovação.
O relatório observa que, apesar de anúncios de reformas para fortalecer a capacidade digital, o governo não detalhou como, ou quando, pretende fechar a lacuna de competências. A criação de novos ministérios, como o Departamento de Negócios, Inovação, Ciência e Comércio, é vista com ceticismo por Clifton-Brown, que teme que reorganizações sucessivas agravem o problema ao invés de resolvê-lo.
Fraudes e erros consomem bilhões de libras por ano
O impacto financeiro da fragilidade tecnológica é expressivo. De acordo com números citados pelo PAC, fraudes e erros já consomem entre £55 bilhões e £81 bilhões anuais dos cofres públicos. Somente no Departamento de Trabalho e Pensões, o valor pago indevidamente em benefícios por fraude e erro atingiu £9,9 bilhões em 2025-26, equivalente a 3,2% do orçamento do órgão. O plano para reduzir esse índice a 2,8% até 2028-29 é considerado insuficiente pelo presidente do comitê, que observa que “even if that succeeds, billions will still be going out the door.”

O cenário se repete em outras áreas críticas, como o Home Office, responsável por políticas de imigração e segurança. O acúmulo de processos de asilo e os custos crescentes, £4,9 bilhões em 2024-25, levaram a adoção de soluções consideradas “contraproducentes” pelo PAC. A promessa de um novo sistema, feita por ministros, não veio acompanhada de explicações sobre funcionamento, custos ou prazos.
Além disso, o uso de ferramentas de IA para triagem de pedidos de asilo enfrenta críticas de entidades como o Open Rights Group, que apontam riscos de erros, falta de transparência e insuficiência de supervisão humana. O debate evidencia que a adoção de IA, sem critérios claros de governança e accountability, pode ampliar riscos ao invés de solucioná-los.
Modernização de TI: exemplos de fracasso e sucesso
O histórico recente de projetos de modernização de TI no governo britânico é marcado por contrastes. O caso da National Savings & Investments (NS&I) ilustra os riscos de iniciativas mal planejadas: o programa iniciado em 2020 para renovar sistemas e cortar custos já consumiu £3 bilhões até dezembro de 2024, £1,3 bilhão acima do previsto, e está classificado como “vermelho” desde 2022-23, indicando baixa probabilidade de entrega bem-sucedida. O órgão não conseguiu informar ao Parlamento nem o gasto atualizado nem uma data realista de conclusão.
Em contrapartida, o Banco da Inglaterra conseguiu reformular seu sistema de liquidação bruta em tempo real (RTGS) por £431 milhões, concluindo o projeto em abril de 2025. O PAC considerou o caso um exemplo positivo e sugeriu que outros departamentos aprendam com essa experiência. A diferença de resultados entre projetos evidencia que planejamento, governança e acompanhamento rigoroso fazem diferença decisiva no sucesso da modernização tecnológica.
O contra-argumento: inovação pode esperar?
Há quem argumente que adiar a adoção de IA até que todos os sistemas legados estejam modernizados seria inviável diante da velocidade das mudanças tecnológicas e da pressão por serviços públicos mais eficientes. Defensores dessa abordagem destacam que a inovação incremental pode gerar ganhos mesmo em ambientes parcialmente modernizados, e que esperar pela “infraestrutura perfeita” pode significar perder oportunidades estratégicas.

No entanto, o relatório do PAC ressalta que a falta de integração entre sistemas antigos e novas soluções digitais tende a aumentar custos, criar silos de informação e dificultar tanto a segurança quanto a interoperabilidade. A experiência do NS&I, com custos fora de controle e entregas atrasadas, reforça o argumento de que inovação sem base sólida pode sair caro, e lento.
O que ainda não se sabe: custos reais e riscos futuros
O relatório do PAC reconhece que muitos custos de projetos de TI no setor público permanecem incertos, seja por falta de transparência, seja por dificuldades de mensuração de benefícios e riscos. Não há consenso, por exemplo, sobre o impacto real da IA na redução de fraudes, nem sobre a capacidade do governo de reter talentos digitais diante da competição do setor privado.
Também não está claro até que ponto a pressão por resultados rápidos em IA pode levar a decisões apressadas, como a adoção de sistemas sem validação adequada ou sem mecanismos de supervisão robustos. O debate sobre o uso de IA em processos sensíveis, como a análise de pedidos de asilo, ilustra os dilemas éticos e operacionais ainda em aberto.
Implicações para gestores públicos e empresas: o que muda na prática
Para quem decide em organizações públicas ou privadas, o alerta do PAC britânico serve como lição valiosa: a tentação de priorizar projetos de IA ou automação sem resolver gargalos de infraestrutura pode ampliar riscos financeiros, operacionais e reputacionais. O exemplo do Reino Unido mostra que metas ambiciosas de digitalização, sem investimento proporcional em modernização de sistemas e qualificação de pessoas, resultam em desperdício de recursos e aumento da vulnerabilidade a fraudes e ciberataques.
No contexto brasileiro, e especialmente em polos industriais como Manaus, onde a dependência de sistemas críticos é alta, a experiência britânica reforça a importância de mapear sistemas legados, avaliar riscos de integração e garantir que a infraestrutura de conectividade esteja à altura das demandas de IA e automação. A pressão por inovação não pode servir de desculpa para negligenciar o básico: disponibilidade, segurança e governança de dados.
O caso do Banco da Inglaterra também mostra que é possível modernizar sistemas essenciais sem extrapolar custos ou prazos, desde que haja planejamento, liderança técnica e acompanhamento rigoroso. Para empresas que fornecem serviços de TI ou conectividade para o setor público, o recado é claro: oferecer soluções que dialoguem com a realidade dos sistemas legados e que permitam evolução gradual pode ser um diferencial decisivo.

O diagnóstico do PAC britânico não é apenas um alerta para Londres: é um espelho para qualquer gestor que aposta em IA sem encarar de frente as limitações da própria infraestrutura. A conta da modernização mal planejada não fecha, e, como mostram os bilhões perdidos em fraudes e projetos fracassados, pode sair mais cara do que qualquer investimento inicial em conectividade robusta, atualização de sistemas e capacitação de equipes.
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