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Expansão de renováveis pressiona sistema elétrico brasileiro por flexibilidade e novos incentivos
A crescente participação de energia solar e eólica impõe desafios inéditos à operação do sistema elétrico nacional, exigindo avanços regulatórios e tecnológicos para garantir resposta rápida à variação de oferta e demanda. Empresas e consumidores já sentem o impacto da falta de sinais econômicos claros para a flexibilidade.

A crença de que ampliar a geração de energia é suficiente para garantir a segurança do sistema elétrico brasileiro já não se sustenta diante da nova realidade imposta pela expansão das fontes renováveis variáveis, como solar e eólica. Segundo análise da MIT Technology Review Brasil, baseada em dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o aumento dessas fontes tem provocado oscilações inéditas na geração hidrelétrica diária, pressionando o sistema por respostas mais ágeis e mecanismos de valorização da flexibilidade. O impacto desse cenário vai além do setor elétrico, afetando diretamente empresas e organizações que dependem de energia estável para suas operações.

Oscilações diárias desafiam o modelo tradicional de operação
Dados do Plano da Operação Energética (PEN 2026) do ONS apontam que, nos primeiros quatro meses de 2026, a amplitude máxima diária da geração hidrelétrica atingiu 46,2 GW, superando o recorde anterior de 44,1 GW registrado em 2025. Em apenas quatro meses, oito dias já ultrapassaram o antigo máximo anual. O ONS atribui essa tendência à mudança no perfil diário de geração e consumo, impulsionada pela maior participação de renováveis intermitentes como solar e eólica no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Esse novo padrão operacional evidencia que o desafio do setor não está mais restrito à capacidade de gerar energia, mas sim à habilidade de responder rapidamente às variações de oferta e demanda ao longo do dia. O conceito de flexibilidade, antes associado à regulação sazonal dos reservatórios hidrelétricos, agora precisa ser aplicado em janelas horárias e até mesmo de minutos.
Reservatórios e ativos antigos ganham novo papel estratégico
Durante décadas, as hidrelétricas com grandes reservatórios foram o pilar da estabilidade do sistema brasileiro, permitindo armazenar água nos períodos de abundância e liberar nos momentos de escassez. Contudo, a expansão de usinas a fio d’água, como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, que juntas adicionaram cerca de 18,55 GW ao SIN, reduziu a capacidade de regularização de energia. Isso tornou ainda mais estratégico o papel de ativos como a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, cuja capacidade de armazenamento permite preservar água para momentos críticos e realizar rampas de geração conforme a necessidade do sistema.
Rodrigo Miguel de Oliveira, diretor de Inteligência, Mercado e Portfólio da AXIA Energia, destaca que “Tucuruí talvez seja hoje um dos maiores ativos de flexibilidade que o sistema brasileiro possui”. Ele explica que, ao aproveitar a geração de usinas sem reservatório e preservar a água de Tucuruí, o sistema ganha margem para responder às oscilações diárias de demanda, especialmente em períodos secos.
Essa ressignificação dos ativos antigos exige investimentos em tecnologia e modernização. Oliveira observa que “Tucuruí, por exemplo, não foi construída pensando em operar do jeito que opera hoje. O ativo foi ressignificado para atender às necessidades atuais do sistema”. Empresas do setor precisam, portanto, adaptar suas infraestruturas e buscar soluções inovadoras para garantir a confiabilidade operacional.
Incentivos econômicos para flexibilidade ainda são incipientes

Apesar da crescente importância da flexibilidade, o sistema brasileiro ainda carece de mecanismos econômicos claros para remunerar adequadamente esse atributo. O setor já conta com alguns instrumentos para serviços ancilares, mas a expansão das renováveis e o surgimento de novas tecnologias, como baterias de armazenamento, ampliam o debate sobre como precificar e incentivar a resposta rápida à variação do sistema.
Em 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) abriu consultas públicas para os primeiros leilões de reserva de capacidade voltados a sistemas de armazenamento em baterias, prevendo remuneração por receita fixa. Para Oliveira, o desafio não é apenas tecnológico, mas também regulatório e de mercado: “A flexibilidade que o sistema necessita, na nossa visão, não tem hoje ainda um sinal econômico, refletido no preço de energia, adequado”.
Ele defende que o mercado deveria se autorregular via sinal de preço, permitindo que diferentes tecnologias concorram entre si para oferecer flexibilidade de forma eficiente. A ausência desses sinais reduz o incentivo para investimentos em soluções como baterias e outros sistemas de armazenamento, o que pode comprometer a capacidade de resposta do sistema diante de eventos extremos ou picos inesperados de demanda.
O consumidor e a empresa como agentes de equilíbrio
Embora a discussão sobre flexibilidade pareça restrita à operação do sistema elétrico, ela tem implicações diretas para consumidores e empresas. Atualmente, a maioria dos consumidores não percebe variações de preço que reflitam a real condição de oferta e demanda ao longo do dia. Oliveira cita a tarifa branca como exemplo de tentativa de diferenciar preços por horário, mas ressalta que o mecanismo ainda trabalha com faixas tarifárias fixas e não acompanha as oscilações reais do sistema.
Se houvesse sinais econômicos mais dinâmicos, consumidores corporativos poderiam ajustar seus hábitos de consumo, deslocando cargas para horários de menor custo e contribuindo para o equilíbrio do sistema. Para empresas, especialmente aquelas com operações críticas, a previsibilidade e a estabilidade do fornecimento de energia são fatores essenciais para a continuidade dos negócios. A ausência de incentivos claros para flexibilidade pode aumentar o risco de indisponibilidade ou custos inesperados em momentos de maior estresse do sistema.
Além disso, a necessidade de adaptar ativos antigos e investir em novas tecnologias representa um desafio adicional para empresas do setor, que precisam equilibrar custos de modernização com a exigência de garantir disponibilidade e qualidade de serviço para clientes corporativos e industriais.

Experiências internacionais e limites da adaptação brasileira
Mercados como Austrália, Texas e Califórnia já implementaram soluções para valorizar a flexibilidade, incluindo liquidação de preços em intervalos mais curtos, contratação de capacidade de rampa e cootimização de energia e serviços ancilares. Segundo Oliveira, a evolução do mercado brasileiro depende de uma combinação de medidas: aprimoramento dos modelos de precificação, redução de subsídios e criação de sinais econômicos para recursos flexíveis.
No entanto, ele alerta que a adaptação dessas práticas precisa considerar as especificidades do sistema brasileiro, como a predominância hidrelétrica e a extensão territorial. “A operação traduz o preço. Se existe escassez ou sobra, o preço de energia precisa refletir de maneira dinâmica e adequada”, afirma Oliveira. A experiência internacional mostra que mercados que alinham preço, despacho e operação em intervalos curtos conseguem responder mais rapidamente a variações, reduzindo riscos de indisponibilidade e otimizando investimentos.
O que ainda não se sabe é como o ambiente regulatório brasileiro irá evoluir para incorporar esses mecanismos sem comprometer a segurança do sistema ou criar distorções de mercado. A abertura dos leilões de baterias é um passo inicial, mas ainda não está claro se os incentivos serão suficientes para atrair investimentos em larga escala e garantir a flexibilidade necessária diante do avanço das renováveis.
O que muda para empresas e gestores públicos
Para organizações que dependem de energia confiável, a transformação do sistema elétrico brasileiro impõe novos riscos e custos. A volatilidade na oferta, a possibilidade de picos de preço e a necessidade de resposta rápida a eventos inesperados tornam ainda mais estratégico o planejamento de infraestrutura e a escolha de parceiros de conectividade e energia.
No contexto de Manaus e do Polo Industrial, onde a dependência de fornecimento estável é crítica para a produção e exportação, a falta de flexibilidade pode resultar em perdas operacionais e aumento de custos. Empresas que antecipam esse movimento e investem em soluções de monitoramento, automação e resposta à demanda podem não apenas reduzir riscos, mas também aproveitar oportunidades de economia e participação em novos mercados de flexibilidade, caso os incentivos econômicos avancem.
O cenário atual exige que gestores avaliem não apenas o custo da energia, mas também a robustez e a capacidade de resposta do sistema ao qual estão conectados. A incerteza regulatória e a velocidade das mudanças tecnológicas reforçam a importância de parcerias com fornecedores que compreendam a dinâmica local e ofereçam suporte técnico alinhado às necessidades do negócio.

A expansão das fontes renováveis e a pressão por flexibilidade expõem a fragilidade de um sistema que, por décadas, apostou na regularização sazonal e na estabilidade dos grandes reservatórios. Para empresas e gestores públicos, a capacidade de antecipar e responder a oscilações do sistema elétrico pode ser o diferencial entre operar com segurança ou arcar com custos e riscos crescentes. O próximo passo está na infraestrutura: investir em conectividade e monitoramento que permitam acompanhar em tempo real a disponibilidade e a qualidade da energia, ajustando operações conforme a dinâmica do sistema brasileiro.
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