Digitalização redefine investimentos e riscos na indústria de energia brasileira

Digitalização na indústria de energia exige novas estratégias de investimento, conectividade e gestão de risco para empresas do setor.

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Digitalização redefine investimentos e riscos na indústria de energia brasileira

Empresas de energia ampliam aportes em digitalização para lidar com desafios climáticos, operacionais e regulatórios. Modernização de redes, IA e sensores já impactam custos e decisões estratégicas.

por Atlas Upnetix Review Team · 30 de setembro, 2026 · 9 min de leitura
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A crença de que a digitalização é um diferencial competitivo, e não uma exigência operacional, já não encontra respaldo nos investimentos e estratégias das principais empresas do setor de energia no Brasil. A reportagem do Valor Econômico mostra que, pressionadas por desafios climáticos, novas cargas e a própria transformação do setor, as companhias passaram a tratar a digitalização como pré-requisito para operar. Essa mudança de postura impacta diretamente a forma como empresas tomam decisões sobre infraestrutura, custos e gestão de riscos.

Felipe Cardoso Reis em reunião no escritório moderno da Cemig com equipe e telas digitais
Felipe Cardoso Reis, superintendente de inovação e P&D da Cemig, destaca que a digitalização é hoje condição para operar no setor de energia brasileiro.

Investimentos em digitalização crescem e mudam de perfil

Segundo levantamento do Valor Econômico, o Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) movimentou R$ 127,38 milhões apenas no primeiro trimestre deste ano, com previsão de R$ 1,1 bilhão em aportes entre 2026 e 2031. Empresas como Cemig, Axia, Neoenergia e Vibra lideram projetos que vão de inteligência artificial (IA) na manutenção de redes à automação de subestações e monitoramento climático em tempo real.

Felipe Cardoso Reis, superintendente de inovação e P&D da Cemig, afirma que “a digitalização passou a ser condição de operar”, impulsionada não só por questões ambientais, mas também pela necessidade de eficiência e resposta rápida a eventos críticos. A Cemig, por exemplo, mantém R$ 350 milhões em 55 projetos ligados ao PDI Aneel, incluindo a implantação de um sistema avançado de gestão de distribuição (ADMS) e a digitalização de 130 subestações.

O caso da Axia ilustra a escala dos investimentos: R$ 630 milhões foram destinados ao fortalecimento de capacidades digitais, analíticas e tecnológicas em 2025, com potencial estimado de R$ 2 bilhões em geração de valor. O centro de monitoramento meteorológico Atmos, que integra dados de satélites e sensores para prever eventos climáticos extremos em segundos, é um dos exemplos de aplicação direta em resiliência operacional.

Automação, IA e sensores: impacto direto na operação e nos custos

O uso de inteligência artificial e sensores remotos já produz resultados concretos. A Cemig registrou aumento de 600% na detecção de invasores em subestações após a adoção de IA em câmeras de segurança. A digitalização da manutenção de linhas de transmissão reduziu em 23% o tempo de execução e registro de informações. Na Axia, a integração de sensores a laser (LiDAR), drones e imagens de satélite no Sistema de Gestão da Vegetação (SGV) permitiu reduzir em 25% as inspeções em áreas energizadas, com economia potencial de até R$ 1 milhão por subestação até 2029.

Na Neoenergia, que anunciou plano de R$ 50 bilhões entre 2026 e 2030 (sendo 40% para digitalização e modernização), o destaque é o sistema de autorrecuperação da rede, capaz de detectar falhas, isolar trechos afetados e restabelecer o fornecimento em áreas não comprometidas. A infraestrutura inclui subestações digitais e rede LTE privativa, reforçando a tendência de redes elétricas mais inteligentes e orientadas por dados.

O setor de comercialização também avança. A Tyr monitora em tempo real cerca de quatro mil pontos de mais de 900 clientes, conectando medidores inteligentes a agentes de IA para identificar padrões atípicos de consumo. Pedro Bittencourt, CTO da Tyr, relata que “na DuLoren, o diagnóstico baseado em IA mapeou perdas estruturais e gerou economia anual de R$ 326 mil”.

Técnicos operando tablets em subestação digitalizada com sensores e equipamentos modernos
A Cemig digitalizou 130 subestações e implantou sistemas avançados de gestão de distribuição para aumentar eficiência e segurança.

Financiamento e regulação: o papel do setor público na transformação digital

O movimento de digitalização não ocorre isoladamente. De acordo com o presidente da Finep, Luiz Antonio Elias, foram contratados R$ 15,3 bilhões em projetos ligados à transição energética entre 2023 e agosto de 2026, sendo R$ 7,2 bilhões para descarbonização, R$ 4,8 bilhões para combustíveis e R$ 3,4 bilhões para energia. Chamadas públicas como o programa Mais Inovação destinam recursos a fontes sustentáveis, armazenamento e transmissão, além de projetos de geração elétrica de baixo carbono.

O próprio modelo de P&D regulado mudou, como aponta Felipe Cardoso Reis, da Cemig, migrando de projetos acadêmicos para soluções ativas em operação. Isso acelera a adoção de tecnologias e pressiona empresas a demonstrar resultados práticos em produtividade, resiliência e redução de custos.

O que está sendo subestimado: conectividade e riscos operacionais

Apesar do consenso sobre a necessidade de digitalização, há um ponto crítico que atravessa todos os exemplos citados: a dependência de conectividade robusta e infraestrutura digital resiliente. O Valor Econômico destaca que a Axia investiu R$ 150 milhões apenas para expandir o sensoriamento, apoiada por uma nuvem voltada à IA com cluster de 96 GPUs da Nvidia. A Neoenergia, por sua vez, aposta em redes móveis LTE privativas para garantir a comunicação entre ativos críticos.

O risco de subestimar a necessidade de banda larga dedicada, baixa latência e disponibilidade contratual pode comprometer não só a eficiência dos sistemas, mas também a segurança operacional. A automação de subestações, o monitoramento remoto e a resposta preditiva a eventos dependem de redes estáveis e seguras, um gargalo especialmente sensível em regiões remotas ou de difícil acesso, como áreas rurais e polos industriais fora dos grandes centros.

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Outro ponto pouco debatido é o custo de transição. Embora os exemplos de Cemig, Axia e Neoenergia mostrem ganhos de eficiência e redução de perdas, o investimento inicial é elevado e a curva de aprendizado pode ser longa. Empresas que não acompanharem o ritmo de digitalização tendem a enfrentar custos operacionais crescentes, maior exposição a riscos climáticos e perda de competitividade.

Contra-argumentos: digitalização não elimina todos os riscos

Há quem questione a velocidade e o retorno dos investimentos em digitalização. O Valor Econômico aponta que, apesar dos aportes bilionários, o setor ainda enfrenta desafios como a integração de sistemas legados, a escassez de mão de obra qualificada e a necessidade de padronização de dados e protocolos. Além disso, a dependência de fornecedores globais de tecnologia, como Nvidia para GPUs e integradores de sistemas de IA, pode criar vulnerabilidades estratégicas.

Técnicos trabalhando no centro Atmos com monitores integrando dados de satélites para previsão climática
O centro Atmos integra dados de satélites e sensores para prever eventos climáticos extremos em segundos, reforçando a resiliência operacional.

Outro argumento frequente é que a automação e a IA não eliminam riscos sistêmicos, especialmente em eventos climáticos extremos que afetam múltiplos pontos da rede simultaneamente. A resiliência operacional depende tanto da tecnologia quanto da capacidade de resposta humana e da redundância física da infraestrutura.

No entanto, os exemplos práticos de redução de custos, antecipação de falhas e aumento da eficiência operacional apresentados pelas empresas do setor indicam que os benefícios superam os desafios, desde que haja planejamento e investimentos contínuos em infraestrutura digital.

O que ainda não se sabe: incertezas e próximos passos

Apesar dos avanços relatados, há lacunas importantes. Não há consenso sobre qual será o impacto de longo prazo da digitalização nos custos regulatórios e nas tarifas ao consumidor final. Tampouco se sabe como pequenas e médias empresas do setor, com menor capacidade de investimento, conseguirão acompanhar o ritmo imposto pelas líderes. O Valor Econômico não traz dados consolidados sobre a difusão dessas tecnologias fora dos grandes players, nem sobre o impacto em regiões com infraestrutura de conectividade limitada.

Outro ponto em aberto é a interoperabilidade entre sistemas de diferentes fornecedores e a gestão dos dados gerados em larga escala. A dependência de nuvem, IA e sensores exige políticas claras de segurança, privacidade e governança, temas ainda pouco detalhados nas iniciativas relatadas.

Implicações para empresas e gestores: conectividade como fator estratégico

Para quem decide em empresas de energia, indústrias dependentes de fornecimento estável ou gestores públicos responsáveis por infraestrutura crítica, a mensagem é clara: digitalização não é mais uma aposta, mas um imperativo operacional. O diferencial competitivo passa a ser a capacidade de integrar sistemas digitais, garantir conectividade estável e responder rapidamente a eventos disruptivos.

Em polos industriais como Manaus, onde a distância dos grandes centros e a complexidade logística aumentam os riscos de indisponibilidade, a escolha de provedores de conectividade com SLA garantido, baixa latência e suporte local torna-se estratégica. A digitalização só entrega valor quando sustentada por uma infraestrutura de dados robusta, capaz de suportar automação, IA e sensoriamento em tempo real.

Drone com tecnologia LiDAR sobrevoando linha de transmissão para monitoramento da vegetação
A Axia usa drones com sensores LiDAR para reduzir inspeções em áreas energizadas, gerando economia e maior segurança na operação.

O avanço da digitalização no setor de energia brasileiro mostra que a resiliência operacional depende cada vez mais da qualidade da infraestrutura digital. Empresas que investem em automação, IA e sensores colhem ganhos em eficiência e redução de custos, mas só conseguem capturar esse valor quando contam com conectividade confiável, especialmente em regiões críticas. Para quem opera em mercados como o Polo Industrial de Manaus, a escolha de uma infraestrutura digital à altura dos desafios do setor pode ser o divisor entre a liderança e o risco de obsolescência.

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