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Demanda por MLCC deve crescer 4,3 vezes até 2030 e ameaça expansão de data centers
Capacitores cerâmicos multicamadas (MLCC) podem se tornar gargalo crítico para a infraestrutura de IA e data centers, segundo Goldman Sachs Research. Concentração produtiva e prazos de entrega crescentes elevam riscos para empresas que dependem de alta disponibilidade.

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) e a digitalização das operações corporativas criaram uma crença confortável no setor: a de que a expansão de data centers depende apenas do ritmo de inovação dos processadores e da capacidade de investimento em infraestrutura física. No entanto, projeções recentes indicam que um componente pouco visível, os capacitores cerâmicos multicamadas (MLCC), pode se tornar o elo mais frágil da cadeia e comprometer a escalabilidade de ambientes críticos.

MLCC: o componente discreto que ameaça a escalabilidade da IA
Segundo estimativa do Goldman Sachs Research, a demanda global por MLCC deve crescer 4,3 vezes entre 2025 e 2030. Esse crescimento é impulsionado principalmente pelo aumento do consumo energético e das exigências técnicas dos sistemas de IA de última geração. Um rack Nvidia GB300 NVL72, por exemplo, consome cerca de 142 quilowatts, valor aproximadamente 16 vezes superior ao de racks convencionais, conforme dados do Uptime Institute compilados no relatório citado pelo TI Inside.
Os MLCCs são responsáveis por estabilizar a tensão, filtrar ruídos elétricos e armazenar pequenas cargas elétricas em frações de segundo, funções essenciais para garantir a operação estável dos chips de IA. A necessidade de lidar com variações de carga milhares de vezes por segundo exige arranjos densos desses capacitores próximos aos processadores, o que eleva exponencialmente a quantidade de unidades por sistema.
O mercado global de MLCCs, conforme o mesmo relatório, pode passar de US$ 15 bilhões em 2025 para mais de US$ 30 bilhões em 2030. Ao final desse período, IA e data centers devem responder por cerca de 30% das receitas do setor.
Oferta restrita e concentração produtiva elevam riscos sistêmicos
Apesar do salto projetado na demanda, a capacidade global de produção de MLCC deve avançar apenas entre 10% e 15% ao ano no mesmo intervalo, segundo o Goldman Sachs Research. Essa discrepância cria uma pressão inédita sobre a cadeia de suprimentos. A produção mundial está concentrada em cinco fabricantes asiáticos: Murata, Samsung Electro-Mechanics, Taiyo Yuden, Yageo e TDK, sediados no Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Dados do Morgan Stanley, citados pelo TI Inside, apontam que a Murata detém 41% do mercado, enquanto a Samsung Electro-Mechanics responde por 23%, e as cinco juntas somam mais de 85% da oferta global.
O processo produtivo desses capacitores envolve a impressão e empilhamento de centenas a milhares de camadas alternadas de cerâmica e eletrodos metálicos, submetidas a temperaturas acima de mil graus Celsius. A complexidade técnica e as exigências de miniaturização tornam a expansão da capacidade lenta: novas linhas levam cerca de dois anos para entrar em operação.

Além disso, os servidores de IA utilizam versões de MLCC com especificações mais rigorosas, incluindo maior capacitância em espaços reduzidos e resistência térmica de até 105 graus Celsius em operação plena. Nesse segmento, os prazos de entrega saltaram de cerca de oito para até 20 semanas, segundo levantamento da TrendForce citado pelo TI Inside.
Impactos diretos na cadeia de data centers e infraestrutura de IA
O cenário de oferta restrita já afeta diretamente a cadeia de fornecimento de data centers e serviços de nuvem. A Mirae Asset Securities classifica a restrição de MLCCs como emergente em 2026 e elevada a partir de 2027, colocando-os ao lado de outros componentes críticos como memória de alta largura de banda e semicondutores de potência. A realocação de capacidade produtiva para atender à demanda de IA pode pressionar ainda mais outras categorias, como automotiva e industrial, que também dependem desses componentes.
Segundo Flávio Vegas, Especialista de Produtos da Global X ETFs Brasil, “o MLCC representa uma fração pequena do custo de um sistema de IA, mas possui uma base de fornecedores concentrada e uma capacidade produtiva que não se expande no mesmo ritmo da demanda. Isso faz com que esses fabricantes tenham relevância para a cadeia de infraestrutura de IA maior do que sua participação no valor total dos sistemas poderia indicar”.
O indicador book-to-bill das principais fabricantes, que mede a relação entre pedidos recebidos e produtos faturados, atingiu o maior nível desde a pandemia, indicando que a demanda já supera a oferta. Para empresas que dependem de alta disponibilidade e estabilidade em ambientes críticos, atrasos no fornecimento desses componentes podem resultar em gargalos operacionais, adiamento de projetos e até paralisações não planejadas.
Contra-argumentos: há espaço para adaptação?
Uma leitura menos alarmista do cenário pode argumentar que o mercado de MLCC, embora concentrado, já enfrentou ciclos de escassez anteriormente e conseguiu se adaptar por meio de realocação de capacidade, inovação em design de sistemas e diversificação de fornecedores. No entanto, os dados apresentados pelas consultorias e bancos de investimento sugerem que a pressão atual é qualitativamente diferente, pois combina crescimento acelerado da demanda, requisitos técnicos mais rigorosos e prazos de expansão produtiva incompatíveis com o ritmo do mercado de IA.
Outro ponto relevante é que a dependência de poucos fornecedores aumenta o risco de interrupções ligadas a eventos geopolíticos, desastres naturais ou falhas industriais, especialmente considerando a concentração em regiões asiáticas sujeitas a instabilidades. Embora o valor individual do MLCC seja pequeno, sua ausência pode paralisar sistemas inteiros, um risco frequentemente subestimado por gestores de TI e operações.

O que ainda não se sabe e o que as empresas precisam monitorar
Apesar das projeções consistentes sobre o crescimento da demanda e a concentração produtiva, ainda há incertezas relevantes. Não está claro, por exemplo, até que ponto fabricantes de hardware e integradores de data centers conseguirão redesenhar sistemas para reduzir a dependência de MLCCs específicos. Tampouco se sabe se novas tecnologias de capacitores ou avanços em fontes de alimentação poderão mitigar parte da pressão sobre essa cadeia.
Outro ponto em aberto é o impacto real nos custos operacionais e nos prazos de implantação de data centers, especialmente em mercados periféricos ou com logística mais complexa, como o Polo Industrial de Manaus. O risco de atrasos ou encarecimento de projetos pode ser maior em regiões distantes dos grandes hubs de distribuição, tornando a previsibilidade de fornecimento um fator ainda mais crítico para a tomada de decisão local.
Implicações práticas para empresas e gestores de infraestrutura
Para empresas que dependem de data centers, nuvem ou aplicações de IA, a escassez de MLCCs representa um risco operacional que vai além do simples custo dos componentes. A possibilidade de atrasos na entrega de servidores, indisponibilidade de equipamentos de alta performance ou necessidade de reengenharia de projetos pode impactar diretamente a continuidade dos negócios, a escalabilidade das operações e a competitividade em setores digitais.
Gestores de TI e operações precisam incorporar o monitoramento da cadeia de suprimentos de componentes críticos em sua análise de riscos, dialogando com fornecedores sobre prazos de entrega, alternativas técnicas e estratégias de contingência. Em mercados como Manaus, onde a logística já é um desafio, a atenção à disponibilidade de infraestrutura e à capacidade de resposta dos parceiros locais ganha ainda mais relevância.
O alerta das consultorias e dos analistas é claro: a expansão da infraestrutura digital não depende apenas de grandes investimentos em hardware ou conectividade, mas também de uma atenção minuciosa a componentes discretos e aparentemente banais, cuja ausência pode travar todo o ecossistema.

À medida que a demanda por IA e data centers cresce em ritmo exponencial, a vulnerabilidade a gargalos na cadeia de MLCCs exige uma abordagem proativa de gestão de riscos e de planejamento de infraestrutura. Para empresas que operam em regiões distantes dos grandes centros de distribuição, como Manaus, antecipar-se a essas restrições pode ser a diferença entre manter a competitividade e enfrentar paralisações inesperadas.
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