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Datacenters europeus podem responder por até 30% do consumo de energia em alguns países até 2035, alerta Moody’s
Relatório da Moody’s projeta que a expansão dos datacenters pode elevar drasticamente a demanda energética na Europa, pressionando preços e levando governos a intervir. Empresas e gestores devem reavaliar custos e riscos de infraestrutura diante desse novo cenário.

O crescimento acelerado de datacenters na Europa está desafiando uma crença confortável do mercado: a de que a infraestrutura digital pode se expandir indefinidamente sem impactos significativos sobre custos operacionais e disponibilidade energética. Segundo relatório da Moody’s citado pelo The Register, a participação desses centros de dados no consumo de eletricidade pode saltar de níveis modestos para patamares críticos em menos de uma década, com projeções que chegam a 17% do total nacional na Holanda e até 30% na Irlanda até 2035. Para empresas e gestores públicos, o alerta não é apenas sobre energia mais cara, mas sobre o risco de restrições regulatórias e instabilidade na base de TI.

Projeções de consumo: de exceção à regra
De acordo com a Moody’s, datacenters representavam uma “baixa fração de um dígito” do consumo elétrico nos principais mercados europeus em 2025, cerca de 2,5%. No entanto, a tendência é de aceleração: na França e no Reino Unido, a expectativa é que cheguem a pelo menos 5,7% em 2035. O caso irlandês é ainda mais emblemático: os datacenters saltaram de 5% do consumo nacional em 2015 para 23% em 2025, podendo atingir 30% em 2035. Já a Holanda pode ver a fatia chegar a 17%.
Esses números, divulgados exclusivamente pelo The Register com base no relatório da Moody’s, não encontram contraponto em outras fontes públicas, o que reforça a necessidade de cautela na interpretação, mas também evidencia a ausência de dados que contestem a tendência apontada.
Expansão acelerada e desafios de infraestrutura
O impulso por infraestrutura digital não deve arrefecer. A União Europeia estabeleceu como meta mais do que triplicar a capacidade de datacenters no bloco em até sete anos, segundo o The Register. Isso inclui não apenas os mercados tradicionais, Alemanha, Irlanda, França e Holanda, mas também a expansão para países nórdicos e do sul da Europa.
Essa corrida implica investimentos massivos em geração e transmissão de energia. O relatório da Moody’s destaca que, enquanto datacenters arcam apenas com o custo da conexão à rede, o ônus da expansão da malha elétrica recai sobre operadoras de transmissão, que enfrentam dificuldades para recuperar rapidamente esses investimentos devido às regras regulatórias europeias.
Para mitigar gargalos, algumas concessionárias estão reaproveitando antigas usinas fósseis, aproveitando suas conexões já existentes, como ocorre em zonas de crescimento de IA no Reino Unido. Parcerias entre utilities e desenvolvedores de datacenters também têm surgido para viabilizar novos projetos e garantir fornecimento energético dedicado.
Pressão sobre preços e respostas regulatórias

O aumento da demanda por energia, somado ao custo de expansão das redes, tende a pressionar as tarifas, alerta a Moody’s. Historicamente, esse cenário leva governos a adotar medidas para proteger consumidores finais, como subsídios, cortes de impostos e, em casos extremos, imposição de tetos tarifários ou novos tributos sobre grandes consumidores.
O The Register cita o caso da Irlanda, onde a Comissão Reguladora de Utilidades (CRU) substituiu uma moratória sobre novas conexões de datacenters por um modelo mais restritivo: operadores que solicitam ligações acima de 10 MVA precisam garantir geração ou armazenamento de energia localmente e suprir pelo menos 80% de sua demanda anual com fontes renováveis adicionais no país.
O Reino Unido avalia exigir garantias financeiras de operadores para filtrar projetos especulativos ou duplicados. Nos Estados Unidos, uma iniciativa chamada Ratepayer Protection Pledge foi implementada para conter o descontentamento popular com o impacto dos datacenters nas contas de luz, obrigando empresas e governos estaduais a prometer que não repassarão integralmente os custos aos consumidores.
Quem perde, quem resiste e o que está em disputa
O principal impacto recai sobre consumidores e empresas que dependem de energia estável e previsível para suas operações. Se o custo da eletricidade sobe e a oferta se torna mais volátil, organizações enfrentam não apenas aumento de despesas, mas também riscos de disponibilidade e de imagem em caso de interrupções.
Operadoras de rede e utilities, por sua vez, alertam para o desequilíbrio financeiro causado pelo descompasso entre a necessidade de investir e o tempo para recuperar esses valores sob regimes regulatórios rígidos. O relatório da Moody’s observa que a pressão é maior sobre as redes de transmissão, já que os datacenters não financiam a expansão da infraestrutura além do ponto de conexão.
Do lado dos operadores de datacenter, há resistência a regulações mais duras, que podem elevar custos e dificultar a viabilização de projetos. O setor argumenta que a digitalização é vital para a competitividade europeia e que restrições excessivas podem deslocar investimentos para outros mercados.
Por outro lado, governos e reguladores buscam equilibrar o desenvolvimento tecnológico com a proteção do consumidor e a sustentabilidade das redes. A experiência irlandesa mostra que, diante do crescimento explosivo, medidas restritivas podem ser adotadas rapidamente, alterando o cenário de negócios de um ano para o outro.

Contra-argumentos e incertezas
Há quem questione a magnitude dos impactos projetados. Parte do setor defende que avanços em eficiência energética, adoção de energias renováveis e novas tecnologias de resfriamento podem mitigar parte do aumento de consumo. No entanto, a Moody’s ressalta que, mesmo com ganhos de eficiência, a escala da expansão prevista tende a superar tais benefícios no horizonte de 2035.
Outra incerteza relevante é o ritmo de adoção de políticas públicas. Embora medidas como as da Irlanda e dos Estados Unidos estejam em vigor, não há consenso sobre a velocidade ou o alcance de futuras intervenções em outros países europeus. O próprio relatório da Moody’s admite que a situação pode variar conforme o contexto político e econômico de cada mercado.
Além disso, não há dados consolidados sobre o impacto específico em setores industriais ou de serviços, nem sobre como pequenas e médias empresas serão afetadas em comparação a grandes consumidores. Essa lacuna dificulta o planejamento estratégico de empresas que dependem de conectividade e disponibilidade contínua de infraestrutura digital.
Implicações para empresas e gestores no Brasil
Para organizações brasileiras, especialmente aquelas localizadas em polos industriais como Manaus, o alerta europeu serve de referência para antecipar desafios semelhantes. A dependência crescente de datacenters e serviços em nuvem exige atenção redobrada à matriz energética, à estabilidade da rede e à resiliência da infraestrutura contratada.
Empresas que operam em setores críticos ou com alta demanda computacional devem considerar não apenas o custo imediato da energia, mas também a possibilidade de restrições regulatórias futuras, exigências ambientais e a necessidade de garantir redundância e SLA (acordo de nível de serviço) em contratos de conectividade.
O cenário europeu mostra que a expansão desenfreada da infraestrutura digital pode ser rapidamente freada por gargalos energéticos e regulações emergenciais, afetando diretamente a continuidade de negócios e a competitividade. Para quem decide, a lição é clara: planejar a expansão digital exige visão integrada de TI, energia e compliance, antecipando riscos que vão além do data center em si.

O avanço dos datacenters na Europa expõe uma realidade incômoda: a infraestrutura digital global não cresce no vácuo. Custos, riscos e restrições energéticas podem redefinir prioridades e inviabilizar operações mal planejadas. Para empresas e gestores atentos, o próximo passo é garantir que a base de conectividade e energia seja tão resiliente quanto a ambição digital do negócio, especialmente em regiões onde a pressão por disponibilidade já é alta e o espaço para improviso é cada vez menor.
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