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Conexis aponta previsibilidade regulatória como fator-chave para investimentos em telecom até 2028
Para operadoras e reguladores, regras estáveis e flexíveis são decisivas para garantir a expansão das redes e destravar bilhões em investimentos no setor de telecomunicações. Obstáculos históricos e desafios tecnológicos colocam pressão sobre o ambiente regulatório.

O setor de telecomunicações brasileiro enfrenta um dilema que desafia a lógica tradicional do investimento empresarial: para as grandes operadoras, a previsibilidade das regras regulatórias pesa mais do que a própria demanda de mercado na hora de decidir onde e quanto investir. Esta tese, defendida por representantes da Conexis Brasil Digital e discutida no painel Panorama Regulatório Telecom na Futurecom 2026, contraria a crença comum de que o crescimento do consumo e da demanda por conectividade seriam os principais motores dos aportes bilionários em redes.

O que está em jogo, segundo a Conexis e a própria Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), é a capacidade do ambiente regulatório de oferecer estabilidade e flexibilidade suficientes para acompanhar a velocidade das inovações tecnológicas, sem se tornar um obstáculo à expansão da infraestrutura. Para quem decide em empresas ou órgãos públicos, o recado é claro: incerteza regulatória pode custar caro, travando não só os investimentos das operadoras, mas também o acesso a redes modernas e eficientes.
Previsibilidade regulatória: o novo fator decisivo para investimentos
Durante o painel, o presidente executivo da Conexis Brasil Digital, Marcos Ferrari, destacou que a previsibilidade das regras ocupa papel central na manutenção dos investimentos em telecom. A fala foi reforçada pelo mediador do debate, que sintetizou o sentimento do setor: “Para uma empresa de grande porte, que está investindo bilhões de reais, a previsibilidade regulatória muitas vezes é mais importante do que a própria demanda”.
O consenso entre os participantes é que, diante de ciclos de investimento cada vez mais longos e complexos, a estabilidade das normas permite planejar e executar projetos de expansão com menor risco de mudanças abruptas que possam comprometer a viabilidade financeira das operações. Segundo o Telesíntese, o debate se estende até 2028, período em que a Anatel deverá tomar decisões cruciais sobre novas faixas de espectro, renovação de autorizações, cibersegurança e sua atuação no ecossistema digital.
Para as operadoras, transformar compromissos assumidos em leilões, como o do 5G, em infraestrutura real depende de um ambiente regulatório previsível ao longo de todo o ciclo de implantação das redes. Sem essa garantia, o risco de paralisar ou redirecionar investimentos aumenta.
Descompasso entre tecnologia e regulação: risco crescente
Outro ponto de tensão identificado no debate é o descompasso entre o ritmo das inovações tecnológicas e a velocidade de atualização das regras do setor. O mercado de telecom já incorpora redes privadas, satélites de baixa órbita, integração entre redes terrestres e não-terrestres, Internet das Coisas (IoT) e novos modelos de negócios no atacado. A dúvida colocada, segundo o Telesíntese, é se a regulamentação vigente possui flexibilidade para acompanhar essa transformação sem se tornar uma barreira ao desenvolvimento.
Nilo Pasquali, superintendente de Planejamento e Regulamentação da Anatel, reconheceu que o setor já não opera mais dentro das divisões tradicionais entre serviços e infraestruturas. “A gente não está mais naquele momento de divisão das cadeias, as estruturas bem divididinhas, todo mundo no seu quadrado”, afirmou Pasquali durante o painel. A própria agência admite a necessidade de adaptar sua atuação para um ambiente digital onde telecomunicações convivem com diferentes elementos da cadeia tecnológica.

Na prática, para empresas que dependem de conectividade para operar, seja indústria, logística, governo ou comércio, o atraso regulatório pode limitar o acesso a soluções inovadoras, aumentar custos e dificultar a adoção de tecnologias que já estão disponíveis em outros mercados.
Obstáculos históricos ainda travam a expansão das redes
Apesar das mudanças tecnológicas e do surgimento de novos modelos de negócio, parte dos entraves ao investimento permanece ligada a problemas antigos. Postes, licenciamento e compartilhamento de infraestrutura foram citados no painel como gargalos que dificultam a implantação de redes, especialmente de fibra óptica e antenas para redes móveis.
O Telesíntese destaca que, mesmo com a entrada de agentes especializados em fibra, torres e data centers, a competição de infraestrutura não eliminou os obstáculos para construção e expansão das redes. Essa combinação de desafios antigos e novos coloca duas agendas simultâneas para o setor: remover barreiras históricas e, ao mesmo tempo, adaptar a regulação para não travar a adoção de tecnologias emergentes.
Para empresas e gestores públicos, isso significa que a disponibilidade de conectividade de qualidade pode variar significativamente conforme a região, o tipo de infraestrutura e a agilidade dos processos de licenciamento. Em polos industriais como Manaus, onde a logística já é complexa, qualquer atraso adicional pode comprometer a competitividade.
Modelo do 5G: referência para o futuro, mas não solução completa
Há um ponto de convergência entre operadoras e Anatel: o modelo adotado no leilão do 5G, que converteu mais de 95% do valor arrecadado em compromissos de investimento, é visto como referência para as próximas decisões sobre espectro. Segundo Pasquali, esse desenho regulatório contribuiu para a expansão das redes móveis desde 2021, e a agência sinaliza que pretende manter a prioridade em compromissos de investimento nos próximos processos.
Entretanto, representantes das operadoras, como os da Conexis, alertam que apenas replicar o modelo do 5G não resolve todos os desafios. A capacidade de transformar compromissos em infraestrutura real depende de regras estáveis e de um ambiente regulatório que acompanhe a evolução tecnológica. Se as normas mudam no meio do caminho, o risco para quem investe aumenta, e a execução dos compromissos pode ser comprometida.
Para o mercado empresarial, isso significa que a expectativa de acesso rápido a novas tecnologias pode ser frustrada por entraves regulatórios ou mudanças de regra durante o ciclo de implantação.

O contra-argumento: flexibilidade excessiva pode gerar insegurança?
Se, de um lado, operadoras e reguladores defendem a necessidade de previsibilidade, há quem argumente que regras muito rígidas podem engessar o setor e dificultar a adaptação a novas demandas. O próprio debate no painel da Futurecom 2026 colocou em pauta se a regulamentação atual tem flexibilidade suficiente para não se tornar uma barreira à inovação.
O risco apontado por críticos desse enfoque é que, ao buscar estabilidade regulatória a qualquer custo, o setor pode acabar criando um ambiente pouco receptivo à experimentação e à adoção de modelos de negócio disruptivos. Por outro lado, a ausência de regras claras e estáveis pode afastar investidores e travar a expansão da infraestrutura, especialmente em regiões menos atrativas do ponto de vista comercial.
O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio entre flexibilidade e previsibilidade, de modo a garantir segurança jurídica sem fechar as portas para a inovação.
O que ainda não se sabe e o que está em disputa
Embora haja consenso sobre a importância da previsibilidade regulatória, ainda não está claro como a Anatel e o governo vão operacionalizar esse princípio nos próximos anos. Não há detalhes públicos sobre como serão definidos os novos compromissos de investimento, nem sobre quais critérios serão usados para avaliar a flexibilidade das regras diante de tecnologias emergentes.
Além disso, permanece a incerteza sobre como serão removidos os obstáculos históricos, como licenciamento e compartilhamento de infraestrutura, especialmente em regiões com desafios logísticos como a Amazônia. Para empresas que dependem de conectividade para operar, essa indefinição representa um risco adicional na hora de planejar expansão, adoção de novas tecnologias ou migração para soluções em nuvem.
Em resumo, o debate sobre previsibilidade regulatória em telecom não é apenas uma questão de interesse das operadoras. Ele impacta diretamente a capacidade de empresas e órgãos públicos acessarem redes modernas, seguras e eficientes, especialmente em mercados desafiadores como o de Manaus.

A experiência recente do leilão do 5G mostra que compromissos de investimento podem acelerar a expansão da infraestrutura, mas sem regras estáveis e processos de licenciamento ágeis, o risco de atraso ou paralisação permanece alto. Para quem precisa de conectividade confiável para operar, monitorar de perto a evolução do ambiente regulatório e buscar parceiros com infraestrutura consolidada pode ser a diferença entre avançar ou ficar para trás no próximo ciclo tecnológico.
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