Inovação · análise
Barreiras internas travam avanço tecnológico em 89% das empresas, revela estudo
Relatório da KPMG aponta que quase nove em cada dez organizações enfrentam entraves internos como dívida técnica, silos de dados e falta de liderança, impedindo a plena maturidade tecnológica. Especialistas alertam para riscos de obsolescência acelerada e desperdício de investimento em inovação.

O discurso de transformação digital costuma ser confortável para quem decide: basta investir em novas ferramentas e o salto tecnológico estará garantido. No entanto, dados recentes do KPMG Global Tech Report desafiam essa crença. Segundo o estudo, 89% das empresas permanecem travadas por barreiras internas, como dívida técnica, silos de dados e carência de lideranças preparadas, impedindo o avanço para a maturidade tecnológica plena. O dado, divulgado pela TI Inside, revela um cenário em que a maior parte das organizações está longe de extrair valor real de iniciativas como inteligência artificial e automação avançada.

O descompasso entre discurso e prática: maturidade tecnológica é exceção
O levantamento da KPMG mostra que apenas 11% das organizações globais atingiram o que o relatório classifica como maturidade tecnológica máxima. Ou seja, a grande maioria das empresas, mesmo as que investem em tecnologia, não consegue consolidar uma arquitetura digital robusta e integrada. A TI Inside destaca que, para o doutor em Ciência da Computação André Ditomaso, esse descompasso não se resolve com a simples aquisição de softwares ou ferramentas de última geração. Ele afirma que “o gargalo que impede os 89% de chegarem ao topo não é a falta de opções no mercado, mas sim o acúmulo de entraves internos que travam a escala da inovação”.
Dívida técnica e silos: os obstáculos invisíveis que custam caro
Entre os principais gargalos, a chamada dívida técnica, o acúmulo de sistemas legados e arquiteturas obsoletas, aparece como o primeiro obstáculo. O relatório McKinsey: The State of AI, citado pela TI Inside, reforça que tentar acoplar inteligência artificial e automações sobre bases de dados fragmentadas não só aumenta os custos de integração como pode acelerar a ineficiência operacional. Isso significa que, em vez de gerar valor sustentável, as empresas acabam desperdiçando recursos tentando modernizar estruturas frágeis.
Outro ponto crítico é a persistência dos silos operacionais e a ausência de governança de dados. O IBM Global AI Adoption Index, também mencionado, aponta que a descentralização das iniciativas de tecnologia resulta em duplicidade de custos, dados isolados por departamentos e dificuldade crônica para medir o retorno sobre o investimento. Sem infraestrutura unificada, projetos inovadores permanecem restritos à fase de piloto, sem escala.
O abandono de projetos de IA: sintoma de uma base frágil

A baixa maturidade tecnológica se reflete no alto índice de abandono de projetos de inteligência artificial generativa. Dados da Gartner, citados pela TI Inside, mostram que pelo menos 30% dessas iniciativas são descartadas logo após a fase de prova de conceito. As razões mais frequentes são baixa qualidade dos dados, custos crescentes de integração e ausência de valor claro para o negócio. Ou seja, mesmo quando há disposição para inovar, a falta de bases sólidas impede que os projetos avancem além do laboratório.
O cenário é agravado pela escassez de profissionais qualificados. Ditomaso ressalta que o déficit não se limita a cientistas de dados, mas inclui engenheiros de machine learning, especialistas em segurança e, sobretudo, lideranças capazes de conduzir a mudança cultural exigida pela transformação digital. A análise converge com o diagnóstico da KPMG: sem investimento em pessoas e processos, a tecnologia permanece subutilizada.
O contra-argumento: tecnologia como solução isolada ainda seduz
Apesar do consenso entre os estudos citados, parte do mercado ainda aposta que a adoção de novas ferramentas, por si só, pode impulsionar a transformação digital. Essa visão, segundo Ditomaso, é perigosa. Ele alerta que empresas que tratam a tecnologia como uma sequência de projetos isolados de TI tendem a enfrentar um processo acelerado de obsolescência. A análise da TI Inside não apresenta contrapontos explícitos de empresas ou especialistas que discordem dessa tese, mas o próprio dado de que apenas 11% atingiram maturidade máxima sugere que a maioria das organizações ainda subestima o peso dos entraves internos.
Outro ponto de debate é a dificuldade de mensurar o retorno sobre o investimento em inovação. A ausência de governança de dados e a fragmentação dos sistemas dificultam a avaliação objetiva dos resultados, o que pode alimentar a resistência de gestores a mudanças estruturais mais profundas. O risco, apontado pelos estudos, é que a hesitação em enfrentar a dívida técnica e os silos resulte em desperdício de recursos e perda de competitividade.

O que ainda não se sabe: caminhos para romper o ciclo
Apesar do diagnóstico detalhado, os relatórios não apresentam uma fórmula única para superar os gargalos internos. Há consenso sobre a necessidade de decisão estratégica, investimento direcionado e liderança qualificada, mas faltam dados consolidados sobre o tempo, o custo e a efetividade das iniciativas de reestruturação digital. Não está claro, por exemplo, quais setores ou portes de empresa conseguem avançar mais rapidamente, nem como o contexto regional, como o de Manaus e do Polo Industrial, influencia a velocidade de adoção de práticas maduras de governança e integração de dados.
Além disso, permanece a incerteza sobre o impacto de novas regulamentações e padrões de interoperabilidade que vêm sendo discutidos globalmente. O que se sabe, a partir dos estudos citados, é que a pressão competitiva tende a aumentar: empresas que não conseguirem resolver suas fundações digitais correm risco crescente de obsolescência, enquanto aquelas que investirem em arquitetura sólida e unificada devem conquistar vantagem sustentável.
Implicações práticas para empresas: o custo real da estagnação
Para organizações B2B e gestores públicos, o recado dos estudos é claro: a estagnação tecnológica não é neutra. O acúmulo de dívida técnica e a fragmentação dos sistemas elevam custos, reduzem a eficiência operacional e dificultam a inovação. Em setores industriais e logísticos, como os presentes no Polo Industrial de Manaus, a dependência de infraestruturas digitais robustas é ainda mais crítica. Projetos de automação, integração com cadeias globais e uso avançado de dados exigem conectividade estável, governança centralizada e equipes capacitadas para operar em ambientes de alta complexidade.
Na prática, isso significa que decisões sobre infraestrutura de TI, conectividade e qualificação de equipes não podem mais ser tratadas como iniciativas isoladas ou de curto prazo. O risco de desperdício de investimento em projetos que não escalam é alto, e a janela para correção está se fechando rapidamente. O desafio, segundo os especialistas citados, é transformar a tecnologia de promessa em plataforma efetiva de crescimento e competitividade.

O diagnóstico dos estudos citados não deixa margem para conforto: enquanto 89% das empresas permanecem travadas por gargalos internos, apenas uma minoria consegue transformar tecnologia em vantagem real. Para quem atua em mercados dinâmicos e dependentes de integração digital, como Manaus, a urgência é ainda maior. A superação da dívida técnica e dos silos de dados não é só uma questão de eficiência, mas de sobrevivência competitiva. O próximo passo é claro: sem uma infraestrutura digital unificada, nenhum projeto inovador passa da fase de teste.
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