Anatel autoriza testes com satélites conectando celulares diretamente: Starlink e operadoras avançam no modelo D2D

Anatel testa satélites conectando celulares diretamente. Starlink recebe licença e modelo D2D muda cenário de conectividade e competição no Brasil.

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Anatel autoriza testes com satélites conectando celulares diretamente: Starlink e operadoras avançam no modelo D2D

Regulação experimental da Anatel e nova licença à Starlink aceleram a integração entre redes móveis e satélites, mudando o conceito de cobertura e competição em telecom. Empresas e governo devem reavaliar riscos e oportunidades na conectividade corporativa.

por Atlas Upnetix Review Team · 26 de outubro, 2026 · 9 min de leitura
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Durante décadas, a cobertura de telefonia móvel no Brasil foi sinônimo de infraestrutura física: torres, estações rádio-base e quilômetros de cabos terrestres. A crença dominante era que a expansão dependia exclusivamente da instalação desses equipamentos em solo. No entanto, decisões recentes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e movimentos de empresas como a Starlink começam a desmontar essa lógica, tornando obsoleta a ideia de que falta de sinal é apenas falta de antena próxima.

Estação terrestre típica de telefonia móvel no Brasil com torres e cabos.
Infraestrutura tradicional de telefonia móvel no Brasil, baseada em torres e cabos terrestres, que está sendo complementada pelo modelo direct-to-device (D2D) via satélites.

O avanço do modelo direct-to-device (D2D), no qual satélites de baixa órbita se comunicam diretamente com celulares comuns, está mudando o que significa estar conectado, e, mais importante, quem controla essa conexão. Para empresas e órgãos públicos, o impacto vai além da tecnologia: envolve custos, riscos regulatórios e uma redefinição das estratégias de infraestrutura e concorrência.

Satélite direto no celular: o que está em teste no Brasil

Segundo reportagem da MIT Technology Review Brasil, a Anatel prorrogou até abril de 2029 o ambiente regulatório experimental para aplicações D2D. Esse sandbox permite testar sistemas em que satélites usam frequências do Serviço Móvel Pessoal (SMP) para se conectar a dispositivos, inclusive com aplicações comerciais e uso do mesmo número do usuário na rede móvel tradicional.

Em maio de 2024, a Anatel autorizou testes em São Luís (MA) nos quais satélites de baixa órbita usaram a faixa de 800 MHz, normalmente reservada à telefonia móvel terrestre, para se comunicar diretamente com smartphones. Segundo a agência, os aparelhos utilizados não precisaram ser modificados, tornando a experiência próxima da conexão móvel convencional. O objetivo, segundo a Anatel, é ampliar a cobertura, não substituir as redes terrestres.

Já em outubro de 2026, a Anatel concedeu à Starlink um novo direito de exploração de satélite associado à Banda S, totalizando 15+15 MHz em faixas com prazos diferentes. De acordo com o acórdão do órgão, a implantação dos satélites V2 Mobile está prevista para começar em 2027. A Starlink informou à agência que pretende usar a Banda S para aplicações D2D envolvendo voz, SMS e banda larga.

Por que a separação entre redes móveis e satélites está desaparecendo

Historicamente, satélite e rede terrestre eram vistos como alternativas: onde não havia fibra, cabo ou rede móvel, constelações em órbita baixa (LEO) poderiam preencher a lacuna, especialmente em regiões remotas. No entanto, a MIT Technology Review Brasil destaca que a expansão dessas redes de satélite trouxe debates sobre uso eficiente do espectro, competição e concentração de infraestrutura.

O modelo D2D, ao permitir que o próprio celular se conecte a um satélite sem terminal dedicado, embaralha as fronteiras entre as duas infraestruturas. A cobertura deixa de depender apenas do número de antenas em solo e passa a envolver acordos entre operadoras móveis e empresas de satélite, disponibilidade de frequências e regras para compartilhamento do espectro. A competição, por sua vez, não se limita mais a empresas com redes terrestres, mas inclui quem consegue colocar e operar grandes constelações em órbita.

Satélite Starlink em órbita baixa da Terra.
Satélite Starlink de baixa órbita que será usado no Brasil para comunicação direta com celulares comuns via modelo D2D, autorizado em testes pela Anatel.

O caso da Starlink levando banda larga à Antártida, citado pela MIT Technology Review Brasil, ilustra como o satélite está preenchendo lacunas em locais onde a infraestrutura tradicional é inviável. A etapa seguinte, já em testes no Brasil, é integrar satélites à própria rede móvel, de modo que o usuário possa manter o mesmo número e aparelho independentemente da infraestrutura disponível no solo.

Competição, espectro e riscos regulatórios: o que está em jogo

A transformação não é apenas tecnológica, mas também regulatória e de mercado. Na Consulta Pública nº 29, a Anatel pediu contribuições sobre competição, convivência entre sistemas e uso eficiente do espectro antes de decidir sobre as frequências destinadas à Starlink. O desafio é organizar um recurso escasso, o espectro, entre diferentes redes e modelos de negócio.

O ambiente experimental (sandbox) da Anatel foi criado justamente para produzir dados técnicos e regulatórios em condições controladas até abril de 2029, ou até que normas permanentes para D2D entrem em vigor. O órgão busca entender como garantir universalização, evitar interferências e promover competição saudável entre operadoras tradicionais e novos players orbitais.

Do ponto de vista das empresas, a indefinição regulatória pode significar riscos na hora de planejar investimentos em conectividade. A dependência de acordos entre operadoras móveis e empresas de satélite, além da necessidade de compatibilidade de frequências e terminais, impõe desafios para quem busca continuidade operacional em áreas críticas ou remotas.

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O que dizem as empresas e quais são os pontos de tensão

Segundo a MIT Technology Review Brasil, a Starlink informou à Anatel sua intenção de usar a Banda S para aplicações D2D envolvendo voz, SMS e banda larga, com implantação dos satélites V2 Mobile a partir de 2027. O movimento é acompanhado por iniciativas globais, como o Projeto Kuiper da Amazon, que disputa com a Starlink o mercado de conectividade via satélite em escala industrial.

O consenso nas fontes é que o D2D representa uma mudança estrutural na oferta de conectividade, mas há divergências sobre o ritmo e o alcance dessa transformação. Enquanto a Anatel vê o modelo como instrumento de ampliação da cobertura, e não substituição das redes terrestres, há dúvidas sobre como será a convivência entre sistemas, especialmente em áreas urbanas densas onde o espectro é mais disputado.

Usuário com smartphone recebendo sinal integrado de rede móvel terrestre e satélite em São Luís.
Teste autorizado pela Anatel em São Luís (MA) onde smartphones comuns conectam-se diretamente a satélites usando a faixa de 800 MHz, sem necessidade de modificações no aparelho.

Outro ponto de tensão é a concentração de infraestrutura: empresas capazes de operar grandes constelações de satélites podem ganhar poder de mercado, deslocando a competição tradicional baseada em infraestrutura terrestre. Isso pode afetar preços, condições de acesso e até a soberania digital em determinados contextos.

Contra-argumentos e incertezas: o que ainda não se sabe

Apesar do otimismo em torno do D2D, há questões em aberto que preocupam empresas e gestores públicos. Um argumento recorrente é que, mesmo com a integração satélite-celular, a qualidade da conexão pode variar significativamente em função da densidade de satélites, disponibilidade de espectro e condições atmosféricas. Além disso, o modelo de negócios para acordos entre operadoras móveis e empresas de satélite ainda não está consolidado, o que pode gerar custos imprevistos ou dependência de poucos fornecedores globais.

Outro ponto é a incerteza regulatória: o sandbox da Anatel vai até 2029, mas não há garantia de que as normas definitivas mantenham as condições atuais. Empresas que investirem pesado em soluções D2D hoje podem enfrentar mudanças abruptas de regras, afetando contratos e operações. Por fim, há dúvidas sobre a interoperabilidade entre diferentes fabricantes de satélites e aparelhos, especialmente em ambientes corporativos que dependem de padrões rígidos de segurança e disponibilidade.

Implicações práticas para empresas: conectividade, risco e decisão de infraestrutura

Para organizações que operam em regiões remotas, como indústrias, agronegócios, logística e órgãos públicos, a possibilidade de conectar celulares diretamente a satélites representa uma mudança de paradigma. A dependência de infraestrutura terrestre pode ser reduzida, ampliando a resiliência operacional e a continuidade dos serviços, especialmente em situações de emergência ou falhas de rede local.

No entanto, o cenário é de transição e incerteza. Empresas precisam avaliar não apenas a viabilidade técnica do D2D em suas áreas de atuação, mas também os riscos regulatórios e de dependência de fornecedores. Em Manaus e no Polo Industrial da região, onde a logística de instalação de infraestrutura terrestre é especialmente desafiadora, o avanço do D2D pode trazer ganhos de cobertura, mas exige cautela na escolha de soluções e parceiros.

O futuro da conectividade corporativa no Brasil está sendo redesenhado em tempo real, com decisões regulatórias e tecnológicas que podem alterar profundamente o mapa de riscos e oportunidades. Para quem depende de disponibilidade contínua, a integração entre redes terrestres e satélites deixa de ser opção marginal e passa a ser questão estratégica, mas, até que as regras se consolidem, o planejamento deve ser flexível e atento às mudanças do ambiente regulatório e competitivo.

Diagrama realista do modelo direct-to-device (D2D) integrando celular, satélite e rede móvel terrestre.
Modelo de comunicação D2D aprovado pela Anatel, permitindo que celulares comuns se conectem diretamente a satélites em baixa órbita usando frequências do Serviço Móvel Pessoal.

O avanço dos testes D2D e a entrada de players globais como a Starlink mostram que a próxima fronteira da conectividade não está apenas no solo, mas também na órbita. Para empresas que operam em regiões como Manaus, onde a infraestrutura terrestre enfrenta limitações logísticas e ambientais, a decisão sobre investir em soluções híbridas, combinando redes terrestres e satelitais, pode ser o diferencial entre manter a operação ativa ou enfrentar períodos de isolamento digital. À medida que a Anatel e o mercado testam novos modelos, a escolha da infraestrutura adequada se torna uma questão de sobrevivência operacional e competitiva.

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